Foto iap

TRAIÇÃO

     Oh! a dor inominável do traído! Adorar, consagrar um afeto puro e imenso a um ente julgado nobre, o mais belo, o melhor, o mais perfeito do Universo, e, quando mais enlevado na realização dos projetos de uma ventura intérmina, em aurirróseo porvir, saber que esse ídolo é falaz, escarnece de sua afeição, cava-lhe no peito o intoxicado estilete da falsidade... Ser ludibriado é sentir um pesar que mutila a alma; é sepultar, no próprio ádito1, mortos, todos os álacres sonhos da felicidade; é ouvir, pusilânime, o fragor da derrocada de todas as aspirações da vida, dentro do próprio íntimo; é sentir o Espírito bruscamente obscurecido, como se nele se houvesse apagado um foco estelar; é observar, com pavor, o futuro que se antolhava2 nacarado como arrebol, transformar-se em lúrido nevoeiro; é ser arrojado, dos páramos3 astrais ao abismo de Calipso4; é sentir as asas que o alcandorava5, no Espaço, subitamente carbonizadas, transformadas em cinza, deixando-o, de borco, despenhar-se do céu num vácuo sem limites, sem fundo, eterno, imensurável... O homicida rasga com um punhal a um coração; o traidor apunhala a alma.

     O assassinado deixa de padecer fisicamente em poucos minutos, quando se esvai a derradeira gota de sangue; o traído morre lentamente, às vezes, numa agonia que dura meio século. Um tira a vida orgânica; o outro mata a ventura e a esperança, que são a vida dos acorrentados à Terra. Um, pertence à justiça humana; o outro, à divina. Um, deixa a prova patente do crime - o cadáver; o outro, assassina a alma e deixa-a invisível, prisioneira ao corpo palpitante, para sofrer a todos os segundos uma tortura inaudita. O homicida faz, às vezes, estancar a angústia que trazia um coração ulcerado de penas; o traidor abre, no Espírito, um sorvedouro de mágoas e tormentos, que parece aumentar a cada momento, até se tornar infindo e apavorante...

     Um, finaliza uma luta - a vida material; outro faz travar no âmago do Espírito uma batalha incessante - a conflagração constante das recordações, da saudade, das desesperanças, das desilusões. Um. Faz consumar o passado, enquanto o Espírito jaz no letargo6 que sobrevém ao seu desligamento da matéria; outro, torna-o em presente eterno.

     É, pois, mais cruel e covarde o que trucida a ventura, do que aquele que estrangula ou apunhala um ente humano. (Espírito Victor Hugo - Obra: Do Calvário ao Infinito - Médium: Zilda Gama). 

Notas do compilador: 1 - ádito = entrada, lugar reservado; 2 - antolhava = tinha diante dos olhos; 3 - páramos - firmamento; 4 - Calipso = ninfa e rainha da ilha de Ogígia, no mar Jônio. Conforme a Odisseia, ela salvou o náufrago Ulisses, apaixonou-se por ele e o aprisionou por dez anos, oferecendo-lhe a imortalidade se renunciasse  ao desejo de regressar à sua pátria, Ítaca; 5 - alcandorava = elevava; 6 - letargo = apatia, prostração.

 

O  HOMICIDA  RASGA  COM  UM  PUNHAL  A  UM  CORAÇÃO;  O  TRAIDOR  APUNHALA  A  ALMA!

                                                                                                                                                        PRÓXIMO                                                                                              INÍCIO