Paisagem portuguesa - foto iap

O SORRISO

     Vai decorrido muito tempo sobre a última comunicação que te fiz. Nem a tua oportunidade nem a minha se têm conjugado de modo a podermos continuar a nossa tarefa. Tenho-o sentido muito.

     Sem ser um saudoso da Terra, sou todavia ainda um amigo dela. Compreendes. A minha psicologia de triste talvez me puxasse, me atraísse grandemente, para a vida intensiva da espiritualidade, afastando-me assim da vida materialona desse planeta; mas o meu feitio, produto laborioso e acentuadíssimo do meu hábito, do meu estudo, atrai-me também, com estranha sedução, para as coisas que me foram particularmente agradáveis na minha recente peregrinação aí na Terra. E agora, que me sinto liberto dos sofrimentos físicos que me acompanharam nas últimas etapas do meu estádio terreno, parecia-me que o meu modo de ver e de apreciar, que chamavam mordaz e frio, mas que eu cria e creio justo, devia acentuar-se em manifestações mais brilhantes e mais incisivas. Enganei-me, porém, meu amado amigo.

     Dizia e pensava (porque muitas vezes dizemos, mas não pensamos o que dizemos) que se me fosse permitido analisar livremente, e do alto, os ridículos dos meus semelhantes na Terra, o faria com uma justeza e até com uma crueldade torturante, que espantaria os meus mais sinceros apreciadores. Via agora a pleno foco de intensiva luz os infinitos cordelinhos, aí invisíveis, que movem os títeres humanos; e só assim compreendia muito fato estranho de que nunca achei a causal. Teria ocasião de fazer justiça em muito assunto em que fui injusto; e apontar, com segurança profissional de um operador, os pontos do organismo social que carecessem de emolientes, de cautério, de golpe ou de extração.

     E admirava-me de que havendo aqui no post mortem tanta gente boa, honesta, dedicada e justa, essa gente se desinteressasse assim, tão rapidamente, das recentes coisas que a preocupavam até ao exagero, deixando correr tudo ao Deus dará, quando consumiram a melhor parte da sua vida e da sua inteligência no esforço titânico de querer “endireitar a sombra de uma vara torta”. Enquanto domavam a sombra pela vara, trabalham afanosamente, extenuantemente e improficuamente. Agora que podiam distinguir a verdade da aparência, o pau da sua sombra, e que tinham assim mais probabilidade de trabalhar com êxito, deixavam a empresa como coisa indigna da mais vulgar atenção.

     A minha admiração contra aquele fato inexplicável, originava em mim o sincero protesto de não seguir jamais aquela orientação; e dizia a mim próprio que se um dia chegasse a ter a probabilidade séria de ainda poder apontar ao mundo os seus ridículos e as suas pindáricas toleimas, o faria sem hesitação e com sincero prazer.

     Era a tarântula da inconsciência a morder-me.

     Chegou, enfim, o dia desejado. Não veio bem em um nevoeiro cerrado como o nosso desejado D. Sebastião há de vir; mas não veio trazido pela tua mão e pela tua estranha faculdade.

     Abrias-me a porta, por onde eu podia penetrar de novo na cena da vida terrena, e então agora, armado em branco como Lohengrin, viria bater-me pela minha dama, a Verdade, como aquele belo e lendário príncipe pela sua princesa barbantina.

     Pois meu querido amigo, vejo-me forçado a confessar que fui mais uma vez injusto com aqueles daqui, do mundo espiritual, nas levianas apreciações que fazia ao seu desinteresse e à sua despreocupação das coisas terrenas, que ainda me afadigavam e remordiam.

     Vi, como eles, isto - o mundo, a terra, o homem, a civilização, o progresso, o amor - enfim, - isto - tão banal, tão insignificante, tão mesquinho, tão pequeno, que me possuí da mais profunda indiferença que jamais terá atacado um ser humano.

     Sucedeu-me como sucederia a um homem em plena exuberância de vida e atividade, assediado das mais violentas, mas das mais belas e práticas preocupações, que tivesse, por uma singular reverberação de memória, saudades da sua meninice, dos seus soldados de chumbo, dos seus cavalinhos de massa, das suas espadas de pau, dos seus chapéus armados de papel, e a quem, por um estranho prodígio de boa fada de mágica, tudo fosse entregue tal qual como lhe aparecia na sua saudade, no ponto distante das suas enternecidas recordações...

     Chamado de chofre à realidade, nem se chegaria a rir de tudo aquilo que outrora fora o seu grande encanto, e ainda pouco antes havia sido para ele uma saudosa aspiração; uma idealização terna no meio revolto em que a sua vida preocupada o agitava.

     O seu senso prático, a sua razão formada, de homem íntegro, havia de envergonhá-lo, por ter uma claudicação da sensibilidade lhe trazido ao espírito a saudade de tanta insignificância banal e pueril.

     O mesmo me sucedeu.

     O mundo com os seus homens, as suas convenções, a sua intriga, a sua maldade, a sua insignificância, representou para mim, no momento em que nele volvia a ter voz e ação, os soldadinhos de chumbo, os cavalos de pasta e as barretinas de papel.

     Tudo reles, tudo mesquinho.

     E daqui o meu desinteresse em aproveitar o meio que punhas à minha disposição, e que com tanto prazer aceitei na minha comunicação primeira.

     Não te desconsoles por isso. Eu virei muitas vezes, senão para os outros, ao menos para ti.

     Para os outros, porém, outros virão.

    Temperamentos de apóstolos, de santos, volverão ao mundo, felizes por terem ensejo de trabalhar em benefício de seus irmãos. É dessa aluvião de abnegações que saem aí os S. Francisco Xavier e os missionários anônimos, que sob a sua esgarçada veste de burel, de pés descalços e calosos, percorrem os sertões ínvios em procura de almas para Deus e de martírios para a carne sua.

     Aqui também os há; louvores por isso ao Pai.    

     Almas sensíveis, não veem no homem o seu semelhante, mas o seu irmão; não veem nele uma coisa íntegra, una, independente e responsável, que a forma faz parecer consigo; mas um pedaço de si próprios, o filho do mesmo genitor, o ente perfeitamente igual a eles, digno de todo o amor na sua ingratidão; de todo o perdão na sua fragilidade; de todo o amparo na sua fraqueza; de todo o consolo na sua dor.

     Esquecem-se de que essa criatura, por quem se desagasalham dando-lhe a sua capa, a aceita, aconchegando-se com ela sem se preocupar com o frio que o seu abnegado doador fica passando. Ignoram que, segundo leis eternas, perfeitas, de justiça absoluta, o sofrimento e a maldade terrena são o esmeril com que as almas grosseiras têm de ser polidas; e que não há na mão do homem preparo algum que possa evitar a ação esmerilhante daqueles lapidários.

     E vêm então, armados no bergantim da Santa Utopia, à conquista dos irmãos perdidos nas condas revoltas da maldade social, ou no mar pestífero da educação egoísta.

     Missionários ideais vêm ainda à barbaria da civilização, onde tudo vai escurecendo pela cerração do utilitarismo material, do egoísmo absorvente e refratário, pregar o perdão e a paz, difundir a luz redentora da doutrina cristã.

     Com esses podes tu contar. Deixarão pedaços da sua ilusão e do seu amor no fraguedo dos caminhos que trilharem, mas virão; e guiados pela tua vontade subirão, descalços, de rastos, como puderem, a ladeira íngreme e escarpada da persuasão, para gritarem de sobre ela ao mundo, que os não ouvirá, que é a hora da oração, como os muezzin de Maomé fazem de sobre os minaretes das suas mesquitas.

     E o mundo não os ouvirá, não.

     Mole imensa impelida pela ambição e pelo orgulho, caminhará avante, perdida, concentrada no cálculo utilitário, cega no remirar-se vaidosa de Narciso mitológico; cérebro esbraseado na febre do poder e do gozo, movimentos convulsos, sanvitescos, de epiléptico moral, seguirá de roldão, esmagando alguma alma cândida, que, perdida, nessa monstruosa serpe, como uma pérola no esgoto de um cano, queira parar para ouvir a palavra santa dos Levitas do Senhor.

     Não me sinto com vocação para esse apostolado.

     Habituei-me a ver o homem e as coisas como são. Não há esforço que os modifique ou que os faça recuar na impetuosidade da torrente.

     Ainda meteria ombros à empresa se me pudesse armar de um açoite colossal, como o dos raios de Jove, para colocar-me diante da turba, e fazê-la parar no seu movimento de fluxo, a fim de ouvir a palavra da verdade, estarrecida pelo medo, ou arquejante na sua audácia, comprimida pelo respeito, como uma fera vencida.

     Ainda o faria se pudesse, a cada um dos átomos humanos que compõem essa descomunal avalanche inconsciente, dizer-lhe uma frase mordaz, fria, irônica, risível, que, por prodigioso milagre, acordasse no seu instinto de besta, ou na sua sensibilidade de espírito ergastulado num monturo, a consciência da sua responsabilidade, ou o conhecimento da sua insignificância. Isso tudo a frio, serenamente, como se estivesse a esgrimir um florete em exercício esportivo.

     Mas falar ao coração, que é um pedaço de couro curtido por sentimentos maus, ou surdo pela grossa camada de sebo que a atonia da inconsciência ou a flacidez da satisfação sobre ele colocou, tanto não farei eu. Conheci bem o homem aí, e muito melhor daqui o conheço, para que me entregue a essa teia de Penélope, ou queira encher esse tonel das Danaides.

     Não poderás com este meu propósito.

     Tu não aprecias o riso. Não sabes rir. Tens medo de rir.

     És um dos tais que, avergado aí à labuta improfícua de querer endireitar na Terra a sombra da vara torta, ainda depois hás de vir esfalfar-te em dizer coisas daqui, que ninguém te aceitará, que ninguém te agradecerá, e pelo que receberás como galardão o epíteto de louco ou de impostor.    

     Impostor!

     Foi este epíteto o que deram também ao maior e mais belo espírito que veio ao mundo; que foi grande se o considerarmos um Deus; mas que era maior se o considerássemos um homem!

     Ele foi impostor e como tal o homem o matou, e como tal o homem o mataria de novo, se de novo volvesse em carne ao mundo, a pregar a paz e o perdão, e as doçuras da vida futura para aqueles que na vida presente sofressem as amarguras com resignação e amor!

     Ele foi impostor; mas a luz do seu Verbo, o calor do seu Amor e o ensino da sua Ação, têm vindo através dos tempos, por sobre precipícios, quebrando obstáculos, no trabalho seguro, maravilhoso, de aperfeiçoar esta vara de suínos de que se compõe a humanidade que o sacrificou e por quem ele se sacrificou.

     Quando te chamarem impostor, lembra-te d’Ele e passa.

     Tu, que não sabes rir, sorri-te.

     O sorriso é a flor dos tristes, é o consolo dos bons.

     Os que riem não sabem fazer nada, os que sorriem conseguem tudo.

     É que o riso é uma manifestação negativa, e o sorriso é uma indicação de superioridade. O que sorri tem a consciência de si; o que se ri desconhece a sua própria inconsciência.

     O que ri é um despreocupado, um indiferente, um egoísta.

     Árvore sem fruto, animal estéril, infecundo. Aquele que desarruga a testa das suas lucubrações espirituais, ou dilata suavemente os músculos num sorriso quase imperceptível, é como a máquina que parou um instante no seu laborar contínuo, a fim de lubrificar os êmbolos para novos trabalhos mais seguros e perfeitos; o cavador que pousa a enxada, para elevar ao céu o seu olhar límpido e aquilino a medir o Sol, a calcular o tempo de que ainda pode dispor para o seu trabalho útil; a mãe que, ao rever-se no rosado bébé do seu amor, bendiz as dores da paridura que lhe deram aquele filho; o santo que louva a Deus por lhe ter dado uma alma simples no meio deste complicado tremedal. Espírito superior, apiada-se da multidão ignorante que o apedreja, como os índios apedrejam o Sol a que não chegam, ou os cães uivam à luz que não compreendem.

     O riso cansa os músculos e deixa como resultado uma sensação dolorosa de fadiga; o sorriso dulcifica a alma, e dilata todo o nosso ser em suavíssima sensação de força e de bem-estar.

     Como são infelizes os que não sabem sorrir!

     Estas reflexões conduziram-me naturalmente ao estado especial do meu ser psíquico.

     Fui levado, pelo pendor natural da minha análise através do teu temperamento de triste, a uma manifestação de fraqueza. Não o nego. É uma afloração da dor que eu sabia esconder de todos; é um grito angustiado da minha pobre alma escravizada à vontade minha, para se não deixar ver aos profanos e aos maus, que passavam todo o tempo a espreitá-la para se rirem dela ou para a torturarem, e que, depois de cansados inutilmente sem a verem, concluíram que eu a não tinha.

     Tinha-a, tinha-a; e Deus bem a encontrou, torturada, triste, esfarrapadinha, sob as lentejoulas com que eu a cobria às vistas indiscretas.

     Ele, o meu, o nosso Pai, bem a viu, coitadinha, tímida, selvagem, receosa de tudo e de todos, menos d’Ele que a aqueceu e acarinhou. Perolazinha no fundo de uma ostra enauseante e apodrecível. É ela ainda tão tímida, que se tendo deixado ver quase imperceptivelmente na magoada reflexão sobre o não ter podido sorrir ao sol, como as flores e as aves, recolheu-se logo, como a sensitiva, receosa de que a multidão a apedrejasse como a coisa desconhecida e temerosa!

     Não vês, meu amigo, como a multidão aprecia fatos que constituem soma prodigiosa dos mais acrisolados estudos? Como deprecia as mais sentidas manifestações da afetividade humana? Como despreza as flores e a saúde - as mais belas maravilhas que Deus deu ao homem nesse mundo? Como descrê da alma - a vida da sua vida?

(Espírito Eça de Queirós - Médium: Fernando de Lacerda - Obra: Do País da Luz - volume 1).

 

O  ESPÍRITO  TEM  SEMPRE  AS  FACULDADES  QUE  LHE  SÃO  PRÓPRIAS;  NÃO  SÃO  OS  ÓRGÃOS  QUE  DÃO  AS  FACULDADES,  MAS  AS  FACULDADES  QUE  CONDUZEM  AO  DESENVOLVIMENTO  DOS  ÓRGÃOS

                                                                                                                                        PRÓXIMO                                                                                                                                      INÍCIO