Se é que há epílogo para a novela da existência humana, ela é constituída por uma série infinita de capítulos, ora narrando lances patéticos, ora trágicos, álacres, passionais, sem lograr jamais, na Terra ou no Espaço, o seu remate, porque a alma é um romance eterno, cujo autor é Deus, e, para evoluir, interrompe e reenceta as cenas do mundo real muitas vezes, até que, sutilizada, quintessenciada, vai desempenhar papéis dignificadores nos mundos desconhecidos, que fulguram acima de nossas cabeças.

 

Cidade de Colatina ES, junto ao rio Doce. Foto iap

 

RECEPÇÃO ESPIRITUAL                                 

Nota do compilador: O autor espiritual narra a recepção a um espírito no Plano Espiritual, após o seu desencarne. Como ele havia desempenhado sua vida de forma útil e produtiva, é recebido por um espírito superior que lhe dá as boas-vindas.

     Irmãos diletos: ouve-nos o Altíssimo neste momento... Anda sua alma radiosa esparsa neste ambiente, metamorfoseada em aroma suave, em maviosidades excelsas, que nos penetram docemente o íntimo, causando-nos uma sensação de paz e ventura inefáveis, jamais percebidas enquanto nossos Espíritos se rojavam pelos tremedais do vício, que nos afastava d’Ele a distâncias imensuráveis!

     A felicidade a que todos os seres no caos de angústias e provas acerbas aspiram, não é um mito - é plena realidade nas paragens siderais! Dela não gozam os que ainda estão avergados ao peso das tribulações inelutáveis e remissoras; não a desfrutam os que não cumprem austeramente os seus deveres, transgredindo-os, maculando a alma com a vasa dos sentimentos malsãos... Fruem-na somente os libertos do Mal, como águias reais que estivessem enjauladas durante séculos, mas, ao dealbar de mirífico arrebol, livres do cárcere sombrio, se librassem em plena amplidão! Sentem-na os que cumpriram, com lágrimas, sacrifícios, desvelos, os mais penosos encargos; os que se crucificaram no madeiro das penas mais pungentes, se lucificaram nas campanhas do Bem e da Virtude, tornaram-se paladinos celestes, defensores das Leis divinas, arautos das verdades transcendentes, soldados fiéis do Marechal Supremo...

     Sabeis, todos vós, do objetivo da nossa magna reunião: associarmo-nos a uma das mais comovedoras solenidades do Universo - a da redenção espiritual de um irmão que ainda se debatia nas sombras planetárias, companheiro de outrora, comparsa das nossas quedas, adversário, algumas vezes, amigo desvelado, outras. Consumou ele um dos mais acérrimos prélios de suas encarnações terrenas, aureolado de imortal triunfo. Para ele cessaram as pugnas terrenas, começou a Eternidade sem limites, sem o entrave dos avatares, como um rosicler1 perpétuo.

     Deus na sua onisciência absoluta houve por bem criar os seres humanos com todas as faculdades anímicas, que eu denomino negativas e positivas - estas simbolizando o Bem, aquelas o Mal.

     Podia fazê-los puros, inteligentes, infalíveis; mas, se assim fosse, como conquistariam o mérito para serem galardoados? Que general promoveria um guerreiro inativo, que nunca houvesse pelejado nem praticado um ato de bravura?

     Como adquirir conhecimentos antagônicos ao Mal, senão realizando feitos de benemerência, em luta com as iniquidades?

     Como se enrijam as potências morais senão na forja da Adversidade?

     Como se reafirmariam as personalidades, se todos vivessem em beatitude, sem ásperos labores, desfrutando uma ventura gratuita, sem méritos apreciáveis?

     Todos seriam iguais, uniformes, como gotas de orvalho na mesma flor, como pérolas do mesmo colar divino...

     Como se apreciaria a luz, sem o conhecimento da caligem?2

     Como se deleitariam eles com o repouso, sem as fadigas do labor? Como estimariam a ventura se não houvesse a desdita? Como desejariam a união, se não houvesse a pungente saudade, as agruras da separação?

     Ele, a Inteligência Superna,3 de tudo cogitou: é mister a peleja com os vícios, as paixões funestas; com o rigor do Inverno, a canícula do Verão senegalesco; com a dor, a perversidade, para que a têmpora da alma, como a do aço submetido a temperaturas extremas, se torne tenaz e adquira, penosamente, os tesouros da Virtude, apurando os sentimentos, engenhando agasalhos, fabricando pão, saneando cidades, aniquilando instintos, dissolutos, se nobilite, torne-se inquebrantável, se quintessencie,4 se angelize, para merecer a dita de desfrutar a paz da consciência, a bonança espiritual nas mansões sidéreas, junto dos entes idolatrados que, no transcurso dos evos, se tornam dela inseparáveis; se aproxime enfim, do Soberano universal - a suprema conquista!

     Como o conseguem, porém? Em uma só existência, uma só campanha? Seria possível, num segundo de provas, conquistar uma eternidade de venturas? Ilusão...

     O ser humano é criado com a imortalidade - herança divina do Elaborador de todos os portentos do Cosmos...

     Podia Ele fazê-lo puro e impecável, mas, assim não procedeu porque, desse modo, nunca seria valorizado o esforço; não haveria seleção entre os que cumprem, ou não, austeramente, os seus encargos planetários; nunca seria galardoado o mérito.

     É mister haja luta, abnegação, sacrifício, aquisição penosa da Virtude, para que as almas se adestrem, se aligeirem, se imunizem contra o Mal, se eterizem e façam jus às missões redentoras!

     Nos momentos de refregas tenazes, nas batalhas da adversidade, todos maldizem o infortúnio, mas, quando lhe reconhecem o valor, não podem deixar de tributar-lhe um culto sincero.

    Nós, os comparsas dos tiranos, os perversos, os conspurcados, os injustos, os traidores, os perjuros dos milênios passados, somos os Aasveros5 do paludes,6 que ascendemos às regiões luminosas do Dever.

     Libertos do Mal, não ficamos inativos, mergulhados no Letes7 da beatitude; continuamos a luta, laborando sempre, tornando-nos úteis aos desventurados, sustendo-os pelas vestes rotas à beira dos sorvedouros do crime, do pessimismo, do ateísmo!

     Sublime e árdua, a missão dos convertidos do Bem: dia a dia aumentam as responsabilidades, à proporção que eles progridem... Não desanimam, porém. Recebem reforços de todos os quadrantes do Universo. Novos paladinos reúnem-se aos veteranos da Virtude.

     Doravante contamos em nosso núcleo mais um combatente nas fileiras do exército do Bem e da Fraternidade.

     Ei-lo, ainda tímido: no espírito, os gilvazes8 da dor, do látego do sofrimento; mas fortalecido para as campanhas mais sublimadas.

     E há de reconhecer, entre os que nos rodeiam, amigos, parentes, adversários de outrora, que já alcançaram o mesmo grau de desenvolvimento psíquico. Suas existências planetárias, refertas9 de lutas e dissabores profícuos, acabam de consumar-se vitoriosamente, pois o recém-vindo tornou-se abnegado apóstolo da Caridade, êmulo de Vicente de Paulo, que deixou um sulco estelar na história da Humanidade.

     Como divergem das da antiguidade as fraternas homenagens que lhe são tributadas, pois ele habitou palácios régios, onde se realizavam esplendorosos festins orgíacos, porque sua alma se achava empedernida, tisnada pelas paixões inferiores.

     Agora, depois de vertidos Urais de prantos, de amargura, saneou-se o Espírito enegrecido pelas iniquidades, encontra-se adestrado para os prélios gloriosos do Dever e da Moral.

     Tê-lo-emos conosco por algum tempo, pois doravante está isento da prova acerba da separação dos entes que mais tem amado - talvez de todas a mais pungente e aflitiva!

     Irmão que vens de encerrar o ciclo terreno, não és um estranho para os que aqui se congregam, antes um desvelado companheiro que, na Terra, nos auxiliou a cumprir as determinações do Árbitro Supremo.

     Os que além, nas arenas planetárias se empenham nas campanhas luminosas da Caridade, são aliados dos irmãos siderais. Os benfeitores da humanidade, os que amparam enfermos, desvalidos, órfãos, ignorantes; os que enxugam lágrimas e iluminam corações, culminam nas provas mais dolorosas, concluem o seu tirocínio de dores, de conquistas penosas. A caridade máxima, porém, não deve consistir em saciar a fome e a sede aos que a têm, mas no exercer o bem com piedade, secretamente, arrancando almas aos bordéis, aos cárceres, e encaminhando-as ao aprisco de Jesus.

     O que fornece alimento ao pária, com dureza, não pratica um ato de altruísmo, pois anula-o com a humilhação infligida a um infortunado; quem estanca uma lágrima com piedade e faz germinar a esperança num coração desalentado e aflito, esse, sim, é um emissário do Altíssimo.

     Este nosso irmão que aqui ingressa, que se incorpora às legiões divinas, soube ser digno apóstolo de Jesus, fechou o ciclo de suas reencarnações com a chave diamantina da abnegação e da compaixão pelos desventurados.

     Não desdenhava os desditosos, os mutilados, acolhia-os sob o seu teto, que se tornava em abrigo dos infelizes, sempre inspirado pela nobilíssima esposa, eterna companheira de suas mais nobres conquistas, e que soube incutir-lhe na alma dúctil os mais belos e generosos ideais e hoje exulta com o triunfo alcançado por ele e por seus dirigentes espirituais.

     Para essas duas almas redimidas, está esgotada a taça das angústias terrenas; tornaram-se perpétuas aliadas para as missões sublimes do Bem e da Virtude.

     Realiza-se hoje o seu consórcio espiritual - conúbio de dois entes acendrados nos prélios planetários, aliança perene abençoada pelo Supremo Sacerdote do Universo.

(Espírito Victor Hugo - Obra: Redenção - Médium: Zilda Gama).

Notas do compilador: 1) Rosicler - Que tem a cor da rosa ou da açucena;  2) Caligem - escuridão, trevas;  3) Superna - Superiora;  4) Quintessencie - O que há de mais puro;  5) Aasvero ou asvero  - personagem lendária mais conhecida pelo nome de judeu errante;  6) Paludes - Pântano, paul;  7) Letes (mit. gr.) - rios dos Infernos; suas águas levam o esquecimento às almas;  8) gilvazes - Golpes ou cicratizes no rosto, produzidos por instrumento cortante; 9) Refertas - abundantes, muito cheias.

 

A  MÁGOA  PODE  SER  COMPARADA  À  FERRUGEM  PERNICIOSA  QUE  DESTRÓI  O  METAL  EM  QUE  SE  ORIGINA.

                                                                                   

PRÓXIMO                                                                                                                                         INÍCIO