Pergunta: Por que os espíritas, professor, evocam os mortos, se a Bíblia proíbe essa evocação? O senhor não acha que não devemos perturbar a paz dos mortos?

RESPOSTA DE HERCULANO PIRES

(Artigo inserido em jornal de S. Paulo, na década de 1970).
 

“Acontece que os mortos perturbam quase sempre a nós, os vivos. Não somos nós que vamos perturbar a paz dos mortos. As manifestações espíritas têm uma historia. E tem mesmo uma linha de experiências de pesquisas que as integram no campo da antropologia cultural.  As manifestações espíritas são fatos culturais. Elas vêm desde as épocas primitivas dos homens das cavernas até os nossos dias.  Toda historia humana, toda cultura humana está impregnada de fatos referentes a essas manifestações. Quando estudamos, por exemplo, a mitologia clássica greco-romana, nós encontramos ali as manifestações dos espíritos, através das pitonisas e através dos oráculos. E vemos que exerceram uma influencia enorme. Sabemos, por exemplo que Sócrates, o grande filosofo grego, o fundador da filosofia moral, consultava o oráculo de Delfos. E ouvia ali o Deus Apolo que era um espírito que se manifestava através do oráculo. Mas sabemos mais. Que Sócrates dizia ter um demônio que o acompanhava.  A palavra demônio, que vem do grego daimon, não quer dizer absolutamente diabo. Quer dizer simplesmente espírito. Então para os antigos, haviam os maus demônios e os bons demônios como para nós hoje existem os bons espíritos e os maus espíritos. Era uma realidade que se constatava naquele tempo. Nós então vemos que as manifestações espíritas existem desde que o mundo é mundo e desde que o homem é homem. Vivemos em ligação com os espíritos. Eles interferem em nossa vida. E nós vamos dizer que não vamos perturbar a paz dos mortos e aceitar que as perturbações espíritas se espalhem no meio social, invadam a sociedade e perturbem as criaturas? Não. Nós não invocamos os espíritos para perturbá-los. Nós os atendemos, porque eles procuram os médiuns. Eles querem falar conosco. Nós atendemos e socorremos, através do esclarecimento espiritual de que eles necessitam e com a colaboração dos santos e dos anjos, que são os espíritos bons e os espíritos puros que assistem aqueles espíritos necessitados. Servindo-se também dos préstimos das pessoas de boa vontade, que se colocam a disposição deles para o trabalho mediúnico. E onde o senhor viu condenação do espiritismo na bíblia?  Ou convocação da evocação dos mortos? O senhor encontra naquele famoso capitulo de Deuteronômio, em que Moises condenou varias coisas. Inclusive a evocação dos mortos para fins utilitários. Veja lá bem. O evocar os mortos para fazer consultas, querer descobrir tesouros e coisas semelhantes, isso é condenado na bíblia. Mas isso é considerado também no espiritismo. Nós não admitimos absolutamente esse tipo de evocações no espiritismo. O que admitimos, toda vez em que nós pensamos em uma pessoa falecida, nós já a estamos evocando.  Não há nenhuma cerimônia especial, para evocar os mortos.  Os mortos recebem o nosso chamado telepático pelo pensamento. E nos atendem quando podem e quando querem. Porque eles são criaturas livres. São espíritos livres até mesmo da matéria. Então nos atendem quando querem, quando lhes convém ou quando eles acham que devem atender. Não há portanto nenhuma violação da paz dos mortos. E não há nenhuma violação dos preceitos bíblicos, porque na própria bíblia e nos evangelhos estão presentes os fatos mediúnicos em grande quantidade”.                                                     

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