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PALESTRA NUMA CASA ESPÍRITA

     Malaquias levantou-se, sereno, humilde e, em atitude de profunda concentração, falou:

     “Caríssimos: Só seremos beneficiados com a luz da compreensão evangélica, quando houvermos renunciado a nós mesmos, tomado a nossa cruz e seguido a Jesus, pelos ásperos caminhos da dificuldade do mundo, mundo que somente Ele soube vencê-lo pelo amor, pela piedade, pela mansidão".

     Relanceou os olhos pela assistência que o fitava como criaturas famintas que descobriram perto de si o manjar delicioso que sacia e encoraja.

     “Jesus, Médico das Almas - prosseguiu - fazendo-se visível aos olhos humanos, fê-lo por amor de nós, doentes rebeldes e recalcitrantes à medicação indicada - o trabalho penoso, mas seguro, de reedificação de nós mesmos e de cura radical dos aleijões da alma. Escolhido o elemento que devia integrar a pequena assembleia em casa de Mateus, Ele pretendia ferir a vaidade do farisaísmo impenitente e orgulhoso, demonstrando que os ensinos de que se fizera portador fiel e intimorato visavam precisamente aos enfermos espirituais que ainda somos todos nós. Se poucos fossem os doentes que, atravessando as fronteiras dos dois mundos, se localizassem neste plano da Eternidade, não houvera mister o imenso sacrifício do Divino Cordeiro de Deus. Para o desempenho de missão de pouca monta ou amplitude, qual a de recambiar para o Bem uma parcela mínima de almas enfermiças, bastaria a reencarnação, na Crosta, de um pugilo(1) apenas de benfeitores esclarecidos. Mas se Jesus desceu até nós e conosco conviveu, repartindo com os nossos pobres corações as sobras de seu Amor sem limites, é porque todos éramos doentes e doentes ainda o somos e bem doentes.

     Na passagem em estudo, cumpre ainda salientar que a atividade construtiva do espírito, bem formado, não se deve circunscrever ao círculo das pessoas espiritualmente esclarecidas, mas dilatar-se de tal forma que abranja todos os desgraçados, todos os infelizes que morreram na carne, na treva da impiedade e do vício. Os fariseus, tanto quanto os seguidores de Jesus, criam que o filho de Maria era em verdade o Messias que Israel esperava há muito tempo, cuja vinda, à Terra, o profeta Isaías anunciara. Mas o orgulho que os cegava e a vaidade que a tradição criara de serem os judeus o povo eleito não os deixavam compreender a razão por que Jesus, descendo à Terra, não lhes anunciasse em primeira mão o evento divino, e não escolhesse um lar suntuoso para o seu primeiro contato com o mundo. Por isso, exprobraram-lhe, a cada oportunidade ensejada, a conduta estranha de, sendo judeu e dizendo-se o Divino Enviado, não procurar enaltecer-lhes as qualidades de raça privilegiada a quem jeová tirara, um dia, da terra da servidão, o que lhes alimentava o orgulho. O despeito, por fim, criou-lhes o desejo que se transformou em resolução inabalável de eliminá-lo pela morte, na cruz, como vulgar malfeitor.

     Jesus, pelo contrário, não perdia ensejo de evidenciar-lhes os propósitos egoísticos; e, daí, predicar que os sãos não precisam de médico, pondo em evidência que eles, os fariseus, eram, talvez, mais doentes que os homens classificados na pauta da má vida. E sempre que se lhe deparava oportunidade, o seu verbo manso, doce e ungido de piedade era um fraterno convite de bondade à alma endurecida do farisaísmo organizado".

     Malaquias silenciara.

     Olhou demoradamente para a assistência e considerou a avidez com que aquelas almas lhe bebiam a inspiração que vinha do outro plano da Vida.

     Todos estavam como que suspensos dos lábios daquele pobre velho que ainda se não havia queixado de tanto sofrer.

     Mães aflitas fitavam-no embevecidas.

     As próprias crianças abriam os seus lindos olhos e procuravam o comentarista do Evangelho. E ele prosseguiu:

     “A despeito de nossa penúria espiritual, Jesus, por seus divinos emissários, está aqui conosco - homens de má vida, que todos somos, como outrora em casa de Mateus. Sentimos-lhe a presença divina, encorajando-nos e sustentando-nos o ânimo. Assim, não façamos, desta oficina de evangelização, senão um lugar de trabalho e um reduto de espiritualidade. As tendas do Espiritismo Cristão não devem confinar o serviço do Mestre ante as suas paredes de pedra. Sua ação redentora deve ultrapassar-lhes os batentes, para levar ao homem que se perdeu lá fora, pelos caminhos da impiedade e do erro, em  noite de incompreensão, o exemplo da renúncia do mundo pelo Amor. Se o nosso labor se angustiasse e morresse dentro de nossa humilde igreja doméstica, não faríamos outra coisa que não a do homem que recebeu, enterrou, e restituiu o único talento que lhe fora dado. Urge que o que aqui conseguimos de graça, gratuitamente o repartamos com os nossos companheiros de romagem planetária, que, ainda cegos pelos esplendores falsos do mundo, erram pelos desvãos da Crosta, arrastados inconscientemente pelos Servidores da Morte.

     Se fizéssemos desta casa, como de outras semelhantes, um foco de irradiação benfazeja, através de constante vigilância, levando para zonas de atividades diversas, somente pelo exemplo, antes que pela palavra, o combate amorável contra os nossos próprios defeitos e vícios, o trabalho excederia a nossa própria expectativa. Entretanto, procuramos, inúmeras vezes, melhorar-nos tão somente dentro das quatro paredes de nossas igrejas de aprendizado evangélico, permanecendo os mesmos homens, lá fora, em contato com os que perderam o sentido da Vida Eterna.

     Nossos lares deverão também, conjugando-se no trabalho de redenção levado a efeito pelos núcleos de evangelização por todo o nosso mundo disseminados, ser outros templos de sublimação espiritual, a fim de que outros lares que se constituirão, através de nossos filhos ou de nossos netos, sejam um prolongamento do primeiro berço, na tarefa divina de espiritualização da Humanidade. Infelizmente, os lares modernos, apesar de nossas afirmativas em contrário, são apenas o refúgio para onde levamos as nossas preocupações subalternas, não resolvidas na rua, dentro de nossos objetivos mundanais. Ao mesmo tempo que alimentamos o nosso orgulho, as nossas vaidades e o nosso egoísmo, estimulamos, pelo mau exemplo, paralelamente, os vícios idênticos de nossos familiares, de tal modo que, ao constituírem os nossos filhos o seu lar, eles o fazem bebendo inspiração no que viram e ouviram de nós mesmos. Os lares, assim, quase sempre são cadeias feitas com os mesmos elos, com o mesmo material de refugo. Estamos, portanto, muito aquém da tarefa por nós solicitada, qual a de sermos discípulos fiéis do Evangelho. Somos homens de má vida, pobres doentes recalcitrantes, a aguardar a cura pelo milagre, conservando-nos, porém, qual éramos: perversos e pervertidos".

     Malaquias silenciara.

     Todos estavam tomados de uma emoção sadia que provocava lágrimas de contentamento.

     As crianças haviam adormecido no regaço das mães maltrapilhas e sofredoras.

     Lá fora o vento soprava frio e causticante.

     Era o minuano cortante.

     A gadaria aquietara-se aqui e ali e a noite se tornara límpida e solene.

(Fernando do Ó - Obra: Apenas uma Sombra de Mulher).

Nota do compilador: Pugilo = Grupo; porção

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NÃO  HÁ  UMA  ÚNICA  IMPERFEIÇÃO  DA  ALMA  QUE  NÃO  IMPORTE  FUNESTAS  E  INEVITÁVEIS  CONSEQUÊNCIAS,  COMO  NÃO  HÁ  UMA  SÓ  QUALIDADE  BOA  QUE  NÃO  SEJA  FONTE  DE  UM  GOZO.