Casa da família Fox    

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           

ORIGENS DO ESPIRITISMO

    

 Irmãs Fox

    

     A palavra Espiritismo é de data recente, a doutrina a que ela se aplica, que quer definir em uma palavra, é tão antiga quanto o mundo. Todavia, em nossa moderna civilização europeia-americana, a aparição dos fenômenos espíritas, sua classificação, sua determinação metódica datam por assim dizer de ontem.

     A história dessas manifestações, contada longamente pelos crentes da primeira hora, tem tal perfume sui generis(1), que pensamos dever contá-la resumidamente.

     Foi em dezembro de 1847, segundo um autor norte-americano(2), que uma família de origem alemã, a família Fox - cujo nome primitivo (Fuchs) havia sido americanizado - veio estabelecer-se em  uma povoação chamada Hydesville.(3) Esta aldeia está situada no condado de Wayne, circunscrição de Arcádia, nos Estados Unidos (Estado de Nova Iorque).

     A família Fox compunha-se do pai e da mãe, John Fox, sua mulher e três filhas. Se o Espiritismo chegar a ser (como é sua pretensão) a religião do futuro, os nomes das duas mais novas meninas Fox ficarão célebres na História. Uma, Margarida, tinha 15 anos; a outra Kate, tinha apenas doze.

     As pessoas que compunham a família Fox pertenciam à Igreja Episcopal Metodista, da qual eram, diz a Sra. Hardinge, "membros exemplares e incapazes de merecerem a suspeita de fraude ou duplicidade".

     Alguns dias depois que se instalaram em sua nova residência de Hydesville, fatos extraordinários, cuja intensidade foi crescendo, produziram-se na casa.

     Observamos ainda uma vez que somos um simples narrador.

     Ouviram-se, conta a Sra. Emma Hardinge, pancadas nas paredes, no soalho e peças vizinhas, etc. Às vezes, estando a família reunida para a refeição da noite, fazia-se grande rumor no quarto de dormir das meninas; todos corriam a inteirar-se da causa do barulho; se bem que portas e janelas estivessem hermeticamente fechadas, não encontravam ninguém, mas os móveis estavam de pernas para o ar ou misturados uns com os outros! Esses móveis, mesmo em presença da família, eram agitados por movimento oscilatório como se estivessem sacudidos sobre as ondas. Este fato sucedia principalmente com o leito das meninas. Os Fox viam sua mobília mover-se como se estivesse animada de vida especial; ouviam-se passos no soalho. As meninas sentiam mãos invisíveis correndo sobre seus corpos; estas mãos eram quase sempre frias. Sucedia também que as meninas experimentassem a sensação de um grande cão a esfregar-se de encontro às suas camas.

     Freqüentemente, durante a noite, John Fox levantava-se acompanhado da mulher e, seguido das meninas Fox, rodeava sua propriedade, procurando surpreender os vizinhos trocistas, que, segundo pensavam, eram os autores das perturbações trazidas, à noite, por essas desordens que tanto tinham de insólitas como de desagradáveis.

     Como já se terá adivinhado, nenhum vestígio se descobria que indicasse a passagem de um ser humano.

     Enfim, em Fevereiro de 1848, a vida tornara-se insuportável na casa habitada pela família Fox; as noites passavam-nas sem dormir, e até os dias não eram isentos de perturbação. Durante todo o mês de março, ouviram-se os mesmo ruídos com variação de intensidade, mas, a 31 de março de 1848, eles foram mais fortes do que de costume. Pela centésima vez, John Fox e a Sra. Fox fizeram trancar as portas e janelas, investigando a procedência dos rumores; mas eis que um fato novo e inteiramente inesperado se revela: ouvem-se sons imitando manifestamente, e como por zombaria, os sons produzidos por portas e janelas, que eram abertas e fechadas! Desta vez, havia motivo para perder-se a cabeça.

     A mais nova das meninas, a pequena Kate Fox, vendo que esses ruídos não lhe ocasionavam mal algum, acabara por familiarizar-se com eles, e como, naturalmente, os atribuíam ao diabo, a menina Fox, sentindo-se sem dúvida com a consciência pura, tinha chegado a caçoar com o seu autor, a quem ela chamava o Sr. Pé de Cabra.

     Uma noite, fazendo estalar os dedos certo número de vezes, ela disse ao invisível barulhento:

     - Fazei como eu, Sr. Pé de Cabra.

     E instantaneamente o mesmo ruído foi repetido semelhante e outras tantas vezes, A menina fez ainda alguns movimentos com o dedo e o polegar, mas devagarzinho, e, com grande surpresa sua, foi dado o número de pancadas igual ao número de movimentos que ela havia executado silenciosamente.

     - Minha mãe" - exclamou ela - atenção! ele vê e ouve!

     A Sra. Foz, tão maravilhada como sua filha, disse ao misterioso companheiro: "Conte até dez", e dez pancadas foram ouvidas. Foram feitas muitas perguntas, que tiveram respostas exatas. A pergunta: "Sois homem?" não teve resposta, mas muitas pancadas claras soaram quando indagaram: "Sois Espírito?"

     Com permissão do invisível visitante foram chamados os vizinhos, e grande parte da noite passou-se em fazer as mesmas experiências, com os mesmos resultados.

     Tal é a origem, o ponto de partida do moderno Espiritualismo "a primeira comunicação - diz Engênio Nus, em uma obra de que teremos ocasião de falar mais de uma vez - estabelecida por uma menina de doze anos com este fenômeno que devia em breve invadir a América e a Europa, negado pela Ciência, explorado por charlatães, ridicularizado pelos jornais, anatematizado pelas religiões, condenado pela justiça, tendo contra si todo o mundo oficial, mas por si esta força mais poderosa do que tudo: este atrativo do maravilhoso."

     Assim, acabou-se por verificar que estes ruídos eram produzidos por um agente invisível, e que este agente se dava por um Espírito. Restava descobrir o meio de comunicar-se com tal Espírito; mas isso não tardou, e como se as bases do Espiritismo devessem simultaneamente estabelecer, dentro de poucos dias foram descobertas a mediunidade e o meio de comunicação entre este mundo material e o mundo espiritual, com o auxílio do spiritual telegraph, isto é, por meio dos rappings, ou pancadas indicando as letras do alfabeto.

     A descoberta da mediunidade resultou do fato de observar-se que os exercícios dos Espíritos executavam-se mais freqüentemente em presença das Srtas. Fox e principalmente por meio da mais moça: Kate Fox.

     Segundo a Sra. Hardinge, verificou-se que, graças a certas forças magnéticas, alguns indivíduos possuíam o poder de médiuns, o qual era recusado ao comum dos mortais, e que este poder, ou antes esta força especial, diferia extremamente segundo os indivíduos que possuíam, e que era muito sensível às diversas emoções morais que a fazem variar de intensidade em um mesmo indivíduo. Resultaria também das observações feitas desde os primeiros momentos, por meio "das comunicações" ou "mensagens", que este movimento espírita, isto é, a inauguração destas comunicações entre os habitantes dos dois mundos, foi preparado por "Espíritos" científicos e filosóficos que, durante sua existência sobre a Terra, se haviam ocupado especialmente de pesquisas sobre a eletricidade e sobre diversos outros fluidos imponderáveis. À testa destes Espíritos achava-se Benjamim Franklin, que freqüentemente, dizem, deu instruções para explicar o fenômeno, e indicou a maneira de aperfeiçoar, de desenvolver as vias de comunicação entre os vivos e os mortos. Numerosos Espíritos, tanto para dar uma nova demonstração do fenômeno como atraídos por afeições de família, dizem, vieram trazer provas irrefutáveis de sua identidade, anunciar que continuavam a viver, mas sob outra forma, que amavam sempre e que, da esfera mais feliz onde estavam colocados, velavam pelos que choravam sua morte, desempenhando, por alguma forma, junto deles, o papel de anjos de guarda.

     Os círculos, os harmoniosos meetings, recomendados pelos Espíritos, constituíram-se depressa e numerosos médiuns revelaram-se. As práticas espíritas espalharam-se como um rastilho de pólvora; mas não faltaram desgostos e nem tudo foi felicidade nas famílias dos médiuns. Não raramente os spiritual circles eram invadidos por fanáticos de diferentes seitas, e cenas selvagens acompanharam estas irrupções, em que houve a deplorar violências, grosserias e absurdos de toda a espécie.

     Foi uma confusão indescritível; uns anunciavam que o movimento indicava a volta próxima do Messias, que o millenium havia chegado, e que o fim deste mundo perverso estava próximo, etc.

     Naturalmente, os diferentes cleros das mil e tantas seitas ocuparam-se da questão; os padres católicos, julgando-se os mais fortes, confiantes e com grandes reforços de hissopes,(4) vieram exorcizar os Espíritos e as mesas caprizantes.(5) Mas as mesas possessas faziam coro e respondiam amém às orações exorcistas. O efeito era nulo: a água benta da Idade Média havia-se deteriorado!

     A família Fox, que não quis submeter-se e que se considerava encarregada da missão de espalhar o conhecimento desses fenômenos, foi expulsa da Igreja Episcopal Metodista. Ela refugiou-se em Rochester por causa da perseguição do Espírito batedor, que continuava, com menos sem-cerimônia ainda, a perturbar o seu lar. Mas em Rochester, cuja população carola como a de todas as cidades da América reparte-se em multidão de seitas, houve perseguições de outro gênero e, desta vez, devidas à maldade dos vivos. O povo amotinou-se contra os Fox; estes se ofereceram para dar uma prova pública dos fenômenos em presença da população de Rochester reunida na maior sala da cidade, em Corynthian hall. A primeira conferência espírita foi recebida com vaias e assobios; não obstante, depois de um destes tumultos que parecem ser o apanágio das reuniões públicas anarquistas, nomearam uma comissão. Após o mais minucioso exame, contra a geral expectativa, contra sua própria expectativa, a comissão concluiu pela realidade dos fenômenos anunciados. Mal satisfeitos, os cidadãos de Rochester elegeram segunda comissão, que foi mais rigorosa ainda do que a primeira. Os médiuns, isto é, as meninas Fox, foram revistadas e até despidas por comissários femininos: segundo relatório, ainda mais favorável do que o precedente.

     A indignação dos habitantes de Rochester exacerbara-se e, por insistência, uma terceira comissão foi nomeada, compondo-se de pessoas das mais incrédulas e escarnecedoras. As investigações foram ainda mais ultrajantes para as pobres mocinhas; mas, humilhada, a comissão foi obrigada a proclamar que Rochester não tinha razão. A exasperação dos populares era indescritível; falava-se de linchar médiuns e comissários, e, quando a leitura do relatório da comissão foi feita sobre o estrado do Corynthian hall, a família Fox, seus amigos e os comissários só deveram a sua salvação, segundo a Sra. Hardinge, à interferência de um quacre, chamado George Willets, que, em razão do caráter pacífico de sua religião, tinha nestas circunstâncias dramáticas uma autoridade particular. O quacre George Willets postou-se arrogantemente no alto do estrado, em frente da multidão que o ia invadir, e "declarou que a quadrilha de bandidos que queria linchar as duas raparigas só o conseguiria passando sobre o cadáver dele!".

     Pouco faltou para que o Espiritismo, em seu começo, contasse por mártires os seus primeiros apóstolos.

     Seja qual for a opinião processada nesta matéria, o espetáculo dessas mocinhas, quase sofrendo o martírio daquela multidão exasperada por algumas pancadas e movimentos inexplicáveis de uma mesa, provoca a comoção. Além do interesse apresentado pelo fato, sob o ponto de vista da história do Espiritismo, pareceu-nos que havia ali um documento humano, como se diz hoje, merecendo as honras de uma menção especial.

     Como é natural, a curiosidade, o atrativo do maravilhoso também concorrendo, todos quiseram ver; a população, na América do Norte, interessou-se pela nova doutrina, parte do intuito de combatê-la, parte no de sustentá-la. Enquanto os homens sérios e particularmente os sábios de todas as ordens não se pronunciavam, muita gente, que não sabe ter opinião por si mesma, manteve-se reservada. Mas desde o dia em que a discussão atingiu as alturas de um debate científico, a questão mudou de aspecto e pode-se dizer que imediatamente a América do Norte se achou literalmente submergida pelas ondas do Espiritismo.

     Primeiro, o juiz Edmonds publicou um trabalho sobre investigações que ele empreendera com idéia de demonstrar a falsidade dos fenômenos espíritas. O resultado final foi diametralmente oposto ao que o autor primitivamente se propusera.

     Em seguida, o sábio Mapes, professor de Química na Universidade, depois "de repelir desdenhosamente as coisas", foi obrigado a convir "que elas nada tinham de comum com o acaso, a fraude ou a ilusão".

     Chegou a vez do Dr. Hare (Roberto), professor da Universidade de Pensilvânia, que publicou uma obra cuja repercussão foi considerável.

     Roberto Hare instituiu uma série de experiências muito engenhosas, demonstrando que em ausência de toda a pressão efetiva, só por aposição dos dedos de um médium, o instrumento com o qual o professor experimentava acusava um aumento de peso de muitas libras. Assim, como veremos mais tarde, o professor Crookes, de Londres, repetiu essas experiências e reconheceu-lhes rigorosa exatidão!

     De 1850 a 1860, só se falava disto em toda a parte; as sociedades sábias examinavam, os clérigos discutiam, os homens de letras, os advogados, todo o mundo, em uma palavra, agitava-se e... injuriava-se. Foi a coisa a tal ponto que o Conselho Legislativo do Alabama, para lançar um pouco d'água fria sobre a efervescência epidêmica que se apoderara dos cérebros norte-americanos, votou uma resolução (bill) decretando que toda pessoa disposta a entregar-se às manifestações espiritualistas seria condenada a pagar uma multa de 500 dólares. Não lembra isto o famoso De part le Roy defense à Dieu - De faire miracle em ce lieu! dos convulsionários de Saint-Medard?

     Pena foi que o governador tivesse recusado sancionar a lei adotada pela legislatura do Alabama; este marco falta-nos para indicar a grande excitação que assinalou a história do moderno Espiritualismo, em 1860. Enfim, já é bonito ver-se uma assembléia eleita, composta de homens graves, ditando uma medida calcada em um draconismo tão cômico.

     Se quiséssemos acompanhar o Espiritismo, desde 1860 até a hora atual, entraríamos em seguida na exposição das pesquisas que foram feitas sobre esta matéria por diferentes sábios, mas prometemos demonstrar que o Espiritismo é velho como o mundo; devemos, pois, retrogradando, fazer a nossa demonstração; isto nos levará provavelmente a provar ligeiramente que o mundo é muito mais velho do que geralmente se pensa. (Obra: O Espiritismo editada em 1886- autor: Dr. Paul Gibier).   PRÓXIMO                                                                                                                                                                   INÍCIO

(1) = De seu próprio gênero - que não tem analogia com outro ou com outra qualquer.

(2) = Emma Hardinge (History of modern american spiritualism)

(3) = Hydesville tem aproximadamente 15.000 habitantes.

(4) = Instrumentos de metal ou madeira que se mergulha em água "benta" para aspergi-la sobre os fiéis na igreja

(5) = O autor se refere a caprinos (cabras). Desde a idade-média havia a fantástica estória de que o diabo existia e de que ele tinha os pés de cabra.