Amsterdã no inverno - Foto iap

O PARTO

(Espírito Eduardo - Obra “Preciso de ajuda” - Médium: Célia Xavier Camargo).

Nota do compilador: Trata-se de tópico do romance “Preciso de ajuda”,  onde um grupo de Espíritos socorre uma mulher às vésperas de ser mãe.    

     O momento tinha chegado. Maria Rita, nossa protegida, havia entrado em trabalho de parto, e estávamos1 sendo requisitados para ajudá-la, visto que mantivéramos estreita ligação com ela, acompanhando de perto sua gravidez e assistindo-a nos momentos mais difíceis.

     O casamento se realizara sem delongas e sem grandes preparativos, como era desejo dos noivos. A gestação estava um tanto adiantada e era conveniente que regularizassem a situação o mais rápido possível.

     O jovem casal passou a residir numa pequena e confortável casa, presente dos pais de Roberto, localizada em bairro residencial simpático e atraente, com jardins e árvores frondosas.

     Nessa noite, Maria Rita passara a sentir as primeiras contrações. A bolsa amniótica se rompera e a criança não tardaria a nascer.

     Estávamos eufóricos! Sempre é algo fascinante o nascimento de um novo ser! No entanto, algumas preocupações nos assoberbavam a mente: os excessos que Maria Rita cometera no início, visando expulsar o feto, produziram sequelas no pequeno organismo. A gestação apresentara alguns problemas e o nascituro era pequeno e frágil, não tendo o desenvolvimento desejável.

     Apesar disso, tudo correra relativamente bem, graças à assistência espiritual. Agora, concluído o período gestatório, só nos restava aguardar o grande momento.

     Estava previsto que seria feita uma cesariana, em virtude de particularidades orgânicas da parturiente, que não poderia ter um parto normal.

     Assim, quando chegamos ao hospital, Maria Rita já estava preparada para a cirurgia, aguardando somente a chegada do médico-cirurgião, previamente contatado.

     Um tanto nervosa, ela requeria fluidos calmantes para manter-se em boas condições físicas e emocionais. Procuramos envolvê-la com amor, de forma que se mantivesse segura e confiante.

     Levada em uma maca, deu entrada na sala cirúrgica, onde a equipe médica se encontrava a postos.

     Nesse ínterim, um alarme soou no nosso plano. Um servidor entrou apressado e comunicou ao médico-chefe, responsável pela equipe espiritual, que o cirurgião adentrara o prédio do hospital sem condições de equilíbrio físico e emocional. Ingerira alcoólicos e estava sem preparo para proceder a intervenção cirúrgica.

     Mas como foi isso, Saul? - indagou a veneranda entidade.

     Estava tudo bem, até que o doutor resolveu passar pela casa de um amigo, a caminho do hospital. Este lhe ofereceu uma bebida, a que ele não resistiu, em virtude da sua tendência para o vício. Aceitou, ingerindo uma dose apenas, mas foi o suficiente para alterar-lhe as condições orgânicas e a competência profissional.

     O médico espiritual pensou um pouco, chamou nosso instrutor e explicou a situação:

     - Galeno, fui informado e que o cirurgião não poderá operar. Temos que substituí-lo. Peço-lhe que tome as providências necessárias, meu amigo, visto que preciso centralizar minha atenção na parturiente, que está a exigir cuidados especiais.

     Imediatamente, Galeno começou a atuar, no sentido de impedir o trabalho daquele cirurgião, para tanto requisitando-nos:

     - Deem a ele sugestões para que reconheça as suas insuficiências e se afaste - ordenou ao César Augusto e a mim, que estávamos mais próximos.

     Recebendo a tarefa, em seguida nos pusemos a trabalhar. Contudo, o médico ignorava nossas sugestões mentais, continuando a preparar-se normalmente para a cirurgia. Tentamos tudo, mas ele se mantinha impermeável às intuições que lhe desfechávamos. Ele ouvia, mas não aceitava ser substituído, retrucando mentalmente:

     - Estou bem. Estou ótimo. Apenas um ligeiro mal-estar, que passará breve, tão logo comece a operar.

     Com o auxílio de uma enfermeira, vestiu o jaleco, assentou a máscara, fez a assepsia das mãos, calçou as luvas e deu entrada da sala cirúrgica.

     César e eu estávamos assustados. Sentindo-nos impotentes para dar conta da tarefa que nos fora confiada, colocamos Galeno a par de nossas dificuldades.

     - O médico continua firme no propósito de realizar a operação! - dissemos ao mesmo tempo.

     Galeno nos tranquilizou, afirmando sereno:

     - Não se preocupem. Ele “não” fará cirurgia.

     O cirurgião-chefe já tomara as primeiras providências para o início da operação, dando uma ordem à enfermeira:

     - Bisturi!

     Galeno aproximou-se do profissional imprevidente e colocou a destra sobre seu plexo cardíaco. No mesmo instante, ele se dobrou sob o influxo de dor aguda na região torácica, enquanto a vista se turvava e as pernas se arqueavam sem controle. Foi um segundo só, mas o suficiente para ser notado. O médico assistente correu para atendê-lo, assumindo a direção. Ordenou a um dos membros da equipe que retirasse o colega da sala e lhe dispensasse o socorro necessário, enquanto daria prosseguimento à cirurgia, visto que a paciente já estava anestesiada e não tinham tempo a perder.

     Daí por diante, o médico espiritual, atuando sobre o jovem doutor, fez com que a operação transcorresse em clima de tranquila segurança. Em pouco tempo a criança era retirada do útero materno e dava o primeiro vagido, assegurando seu direito à vida!

     Quando o jovem médico segurou nos braços aquele pequeno ser, sujo e ensanguentado, indefeso e chorão, sensibilizou-se até às lágrimas. O espetáculo da renovação da vida é sempre algo sublime e impressionante. Impossível não nos prosternarmos ante a Majestade Suprema do Universo, agradecidos e maravilhados pela nova existência, pelo milagre do renascimento.

     Nós, que nos conserváramos na torcida, emocionados, elevamos os pensamentos ao Criador por mais esta bênção, intimamente gratificados.

     Maria Rita passava bem e, algumas horas depois, já desperta, recebia nos braços, pela primeira vez, o recém-nascido, em meio aos familiares que queriam conhecê-lo.

     Agora limpo e bem agasalhado, o pequeno dormia placidamente entre as rendas e cambraias do enxoval.

     Maria Rita fitou o filhinho com profundo amor, enquanto o colocava ao seio para acostumá-lo à sucção e para incentivar a formação do leite, que o nutriria daí por diante.

     Roberto, encantado, não se cansava de admirar o bebê, envolvendo a mãezinha com carinho redobrado.

     Não pude evitar de lembrar as dificuldades que cercaram este caso, a rejeição de Maria Rita pelo filhinho, no início da gestação. Que mudança se operara na sua e na vida de todos os personagens desta história! Quanto se pode fazer quando se tem amor e compreensão pelos semelhantes. E, especialmente, quando se aprende a perdoar.

     Uma vida que se renova é sempre uma bênção de Deus em benefício de Suas criaturas, aproximando os seres para os reajustes perante a Lei e para o refazimento das ligações afetivas, não raro danificadas no passado por comportamentos destrutivos.

     Nesse instante, a vovó Marlene, mãe de Roberto, indaga, curiosa:

     - E então, já escolheram o nome do garoto?

     Roberto e Maria Rita se fitaram com olhar cúmplice e apaixonado. Em seguida, sorrindo, a mãezinha afirmou:

     - Nosso filho se chamará Osório, como o avô.

     O pai de Roberto, pego de surpresa, não conseguia controlar a emoção. O peito parecia querer explodir de alegria. Jamais poderia  esperar que sua nora, a quem sempre fizera oposição, aceitasse colocar o “seu” nome no bebê.

     Aproximou-se cheio de gratidão, abarcando num mesmo abraço os jovens pais e o recém-nascido que dormia, incapaz de perceber a importância daquele momento.

     Desfaziam-se, a partir daí, as últimas resistências do passado e uma nova era de entendimento surgia, renovando aquelas vidas sedentas de paz.

     O Espírito daquele que fora Romualdo, agora feliz, repousava, finalmente, nos braços amorosos de sua mãe.

     Satisfeitos e gratificados, envolvendo a todos em vibrações fraternas e amigas, deixamos  o hospital rumo a “Céu Azul”.

1 - Quem descreve os fatos é um espírito incumbido de missão de socorro a encarnados. (Nota do compilador).  

 PRÓXIMO                                                       INÍCIO

 

ENTRE  O  SACRIFICARES-TE  OU  SACRIFARES  OS  OUTROS  INUTILMENTE,  OPTA  SEMPRE  PELO  TEU  SACRIFÍCIO