Estátua de Júlio Diniz no Porto - Portugal              

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NASCEU O REDENTOR!

      Natal, Natal! Nasceu o Redentor!

     Que ele dê paz ao Mundo, e a ti, meu querido amigo, luz à tua alma e paz à tua vida!

     Isto te disse eu em 1906, como sincera aspiração da minha alma agradecida e cristã. Isto repito agora, com mais fervor, com mais humildade perante Deus. Que Ele dê a paz ao Mundo e à tua vida, que ambos carecem bem dela. O mundo, quanto mais proclama a paz, mais se lança na guerra; a tua vida, quanto mais pela paz anseia, mais guerra a assola.

     Como é hoje diferente o dia de Natal em nossa terra! Em poucos lares se verá fumegar a chaminé à meia-noite; em poucas lareiras haverá o lume caricioso, para transmitir o calor aos que, inteiriçados, mas alegres, esperavam cantando ou rezando a hora solene, para irem ao presbitério ver nascer o menino. Em poucas casas haverá a ceia grande e tradicional, em poucas haverá paz, em poucas a inquietação ou o sofrimento deixará de adejar como morcego sombrio e de mau agouro. Em poucos presbitérios nascerá o menino! Os sinos não tangerão, enviando pelas quebradas, na quietação da noite, os sons festivos. Não mais flores, não mais incensos, não mais luzes, não mais poesia nas igrejas! Agora a tristeza cobre a alma cristã, em nossa terra, com o denso véu negro da desolação!

     Em muitos lares faltam ausentes que não podem comparecer à reunião santificada da família! Muitos estão órfãos! Em alguns não há fogo, em outros não há paz, em outros não há pão! Lágrimas, só lágrimas é que rolarão em abundância pelas faces maceradas dos que em vão olham para a porta cerrada, sem esperança de que por ela entre a alegria!

     Como tudo isto põe estremecimentos de dor em nossa alma! Como ambições insofridas, como a desorientação espancam da nossa terra florida e o seu encanto cristão, o conforto das almas simples, a resignação das almas padecentes! E todos a pregarem a paz!

     Como vai já longe o tempo em que o eco conduzia, através das serranias, o som festivo dos sinos das aldeias, que ia perder-se no espaço, entoando salmos de bronze em louvor do menino nascido, levando, na vibração de cada badalada, cânticos de alegria, aspirações de felicidade. E as crianças e os velhos lá iam, embuçados e brancos da nevada, felizes com o trino da campana, beijar o pequeno menino Jesus que o seu padre lhes apresentava sorrindo.     

     Era sempre o mesmo menino Jesus. Eles é que eram diversos de ano para ano; eram romeiros novos, que os outros se iam esquecendo na jornada, cansados de fadigas, exaustos pelas dores, e haviam aparecido aqui, nestas regiões onde não nasce o menino, mas onde se adora a Jesus na plenitude da sua graça, da sua bondade anunciando a alegria e a festa da freguesia e do seu amor.

     Aqui não vem a guerra dos homens destruir-lhe o culto! Como é desolador que a insânia dos homens se extenue tanto em destruir a própria felicidade! E olho para ti, olho para o teu lar. Ambos órfãos! Ele órfão do teu carinho, tu órfão do seu conchego. Lá, saudades e lágrimas. Aqui... Como é triste tudo isto! Como faz pena olharmos e vermos o que aí se passa!

     Não estranhes que andemos afastados. É doloroso vermos ruínas. Ruínas de uma terra que foi nossa; ruínas de uma felicidade que aí amamos; ruínas de uma fé que aí nos fortaleceu! Ruínas, só ruínas!

     É hoje a festa da família em nossa pátria terrena! A festa da família! A desgraça tem às vezes ironias cruéis! A festa da família! Quem há em Portugal que creia sinceramente que hoje se realize nos lares portugueses a festa da família? Nos lares, onde há lágrimas em vez de risos, onde há a inquietação em vez da paz, onde reina o desespero em lugar da confiança, onde se não espera, onde se não pode crer, onde se não pode orar!

    Natal! Natal! Nasceu o Redentor! Que ele leve a paz à nossa terra e a felicidade a todos os lares, ora apagados, ora aflitos, onde se soluça e se não sorri, onde a dor avassala as almas e os corações e os lábios não balbuciam, por medo, o doce nome do Nazareno. (Espírito Júlio Diniz - Médium: Fernando de Lacerda - Obra: Do País da Luz Volume 4).

NOTA DO COMPILADOR: Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Júlio Diniz) foi médico, escritor e professor. Alguém afirmou que ele foi o mais «suave e terno romancista português, cronista de afectos puros, paixões simples, prosa limpa». Ele morreu aos 32 anos de idade de tuberculose, assim como sua mãe e seus 8 irmãos. Fonte www.wikipedia.org/

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A dor conduz-nos à perfeição, como a imperfeição nos conduz à dor