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Santo Odilon - 962/1049

LAR DE UMA FAMÍLIA ESPÍRITA

 

     Há três anos a Sra. G... ficou viúva, com quatro crianças. O filho mais velho é um rapaz amável, de dezessete anos, e a filha mais moça uma encantadora menina de seis. Desde muito tempo essa família se dedica ao Espiritismo, e antes mesmo que esta crença se tivesse tornado tão popular como hoje, marido e mulher tinham uma espécie de intuição, que diversas circunstâncias haviam desenvolvido. O pai do Sr. G... lhe tinha aparecido várias vezes na mocidade, sempre para o prevenir de coisas importantes ou para lhe dar conselhos úteis. Fatos semelhantes também se haviam passado entre os seus amigos; de sorte que, para eles, a existência de além-túmulo não era objeto da menor dúvida, assim como não o era a possibilidade de nos comunicarmos com os seres que nos são caros.

     Quando o Espiritismo surgiu, foi apenas a confirmação de uma ideia bem assentada e santificada pelo sentimento de uma religião esclarecida, pois aquela família é um modelo de piedade e de caridade evangélica. Na nova ciência aprenderam os meios mais diretos de comunicação. A mãe e um dos filhos tornaram-se excelentes médiuns. Mas, longe de empregar essa faculdade em questões fúteis, todos a consideravam como precioso dom da Providência, do qual não era permitido servir-se senão para coisas sérias. Assim, jamais a praticavam sem recolhimento e respeito, e longe das vistas dos importunos e curiosos.

     Neste meio tempo o pai adoeceu e, pressentindo seu fim próximo, reuniu os filhos e lhes disse: “Meus caros filhos e minha amada mulher: Deus me chama para Ele; sinto que vou deixar-vos daqui a pouco; mas também sinto que por vossa fé na imortalidade encontrareis a força para suportar esta separação com coragem, assim como eu levo o consolo de que poderei sempre estar entre vós e vos ajudar com os meus conselhos. Assim, chamai-me quando eu não estiver mais na Terra. Virei sentar-me ao vosso lado, conversar convosco, como o fazem os nossos antepassados. Porque, na verdade, estaremos menos separados do que se eu partisse para uma terra distante. Minha cara esposa, deixo-te uma grande tarefa; mas, quanto mais pesada for, mais gloriosa será; tenho a certeza de que os nossos filhos te ajudarão a suportá-la. Não é, meus filhos? Auxiliareis a vossa mãe; evitareis tudo quando possa fazê-la sofrer; sereis sempre bons e benevolentes para com todos; estendereis a mão aos vossos irmãos infelizes, porque não haveis de querer estendê-la um dia pedindo em vão para vós. Que a paz, a concórdia e a união reinem entre vós; que jamais o interesse vos separe, porque o interesse material é a maior barreira entre a Terra e o Céu. Pensai que estarei sempre junto a vós, que vos verei como vos vejo neste momento, e ainda melhor, pois verei o vosso pensamento. Não queirais, assim, entristecer-me depois da morte, do mesmo modo que não o fizestes em minha vida”.

     É um espetáculo realmente edificante a vida dessa piedosa família. Alimentadas nas ideias espíritas, estas crianças não se consideram separadas do pai. Para elas, ele está presente; temem praticar a menor ação que o possa desagradar. Uma noite por semana, e às vezes mais, é consagrada a conversar com ele. Existem, porém, as necessidades da vida, que devem ser providas, pois a família não é rica. É por isso que um dia certo é marcado para essas conversas piedosas e sempre esperadas com impaciência. Muitas vezes pergunta a pequenina: “É hoje que papai vem”? Nesse dia realizam conversas familiares e recebem instruções proporcionadas à inteligência, por vezes infantis, por vezes graves e sublimes; são conselhos dados a propósito de pequenas travessuras que ele assinala. Se faz elogios, também não falta a crítica, e o culpado baixa os olhos, como se o pai estivesse à sua frente; pede-lhe perdão e este por vezes só é concedido depois de algumas semanas de prova: sua sentença é esperada com febril ansiedade. Então, que alegria, quando o pai diz: “Estou contente contigo!” Entretanto, a mais terrível ameaça é dizer: “Não virei na próxima semana”.

     A festa anual1 não é esquecida. É sempre um dia solene, para o qual convidam os avós e demais mortos da família, sem esquecer um irmãozinho, falecido há alguns anos. Os retratos são enfeitados de flores; cada criança prepara um pequeno trabalho, por vezes mesmo uma saudação tradicional; o mais velho faz uma dissertação sobre assunto grave; uma das meninas toca um trecho de música; a menor recita uma fábula. É o dia das grandes comunicações, e cada convidado recebe uma lembrança dos amigos que deixou na Terra.

     Como são belas essas reuniões, na sua tocante simplicidade! Como tudo, ali, fala ao coração! Como é possível sair delas sem estar impregnado do amor do bem? Nenhum olhar de mofa, nenhum sorriso céptico vem perturbar o piedoso recolhimento: alguns amigos partilham das mesmas convicções e, devotados à religião da família, são os únicos admitidos a participar desse banquete do sentimento.

     Rides quanto quiserdes, vós que zombais das coisas mais santas. Por mais soberbos e endurecidos que sejais, não vos faço a injúria de acreditar que o vosso orgulho possa ficar impassível e frio ante um tal espetáculo.

     Um dia, entretanto, foi de luto para a família, dia de verdadeiro pesar: o pai havia anunciado que durante algum tempo, longo tempo mesmo, não poderia vir. Uma grande e importante missão o chamava longe da Terra. A festa anual não deixou de ser celebrada. Mas foi triste, pois o pai lá não estava. Partindo, havia dito: “Meus filhos, que em minha volta eu encontre todos dignos de mim”, e cada um se esforça por tornar-se digno dele. Eles ainda esperam.  (Allan Kardec - Revista Espírita de 1859). 

(1) = A festa anual mencionada é a do Dia de Finados, que era celebrada pelos Druidas e foi adotada na França pelo Abade de Cluny (Santo Odilon), em 998, mais tarde oficializada pela Igreja. Para essa família era o Dia dos Espíritos.

NOTA DO COMPILADOR: É interessante a vida de Santo Odilon (ou Odilo); para quem se interessar pode constatar em https://en.wikipedia.org/wiki/Odilo_of_Cluny - (google chrome).

 

UM  CÉREBRO  É  UM  MUNDO;  E  FAZER  LUZ  NELE  É  FAZER  BROTAR  UM  SOL  NESSE  MUNDO

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