JESUS, CÂNTICO DE PAZ E DE AMOR

Autor: Espírito Alves Mendes.

Passa por ser o maior orador sagrado português, depois do padre Antônio Vieira. A facúndia portentosa do seu estilo constituía um fato excepcional. Foi um grande orador e não menor escritor.

Este artigo consta no volume 2, da obra "Do País da Luz", recebida pelo médium Fernando de Lacerda no início do século XX. www.febeditora.com.br

     "Um ramo compõe-se com todas as flores; o arco-íris com todas as cores; a Humanidade com todos os sentimentos; um edifício com todos os materiais.

     Tudo é preciso. A uniformidade do conjunto dá a majestade; a harmonia das cores dá a beleza; a metódica aplicação dos materiais a solidez da obra construída. Para a tua obra trago eu também o meu auxílio.

     Outros melhores terás, mas nem por ser dos de menos valia deixará de ter cabimento.

     Quando não tivesse outro merecimento, tinha o de permitir maior realce ao que de mais grandioso valor já possuis e possa vir a conseguir.

     Aproveito para o assunto o dia de hoje*.

     É arrojado, bem sei. Se é assunto em demasia grande para quando na Terra o apreciamos, minguado pela dúvida, esbatido pela distância; apreciando-o daqui, onde o conhecemos na sua plenitude de tragédia, de injustiça e de fatalidade, então sentimo-nos infinitamente pequenos para o interpretarmos e descrevermos.

     Na Terra ainda podemos olhar para ele com o nosso espírito velado pela mesquinhez da nossa visão, como podemos olhar para o Sol com lunetas escuras; mas aqui, onde a luz que irradia do fato e do seu ator principal nos ofusca a razão e nos deslumbra pela intensidade maravilhosa, então, sentimo-nos atônitos ao tentar fixá-lo e analisá-lo.

     Todos os atos da vida do Mestre podem ser apreciados sem dificuldades aqui, menos o que se relaciona com a trágica cena da sua crucificação.

     Sentimos em nós como que repulsão de termos sido homens. Parece que alguma parcela do remorso de Judas nos punge a alma.

     O seu nascimento corresponde, para nós, aqui e aí, a um cântico de paz e de amor.

     É o hosana ao Salvador; é o gorjeio da ave ao Sol que rompe a treva e lhe traz o dia; o cântico do prisioneiro que recupera a liberdade; a satisfação do cego que readquire a vista;a felicidade do doente que recobra a saúde.

     Desde que Ele entrou na vida terrena que o nosso espírito, ao acompanhá-lo na sua peregrinação, se sente tomado de enleio, atraído, fascinado, preso à sua estranha figura iluminada.

     Pensando n'Ele desde o seu nascimento, sentimo-nos comovidos e extasiados.

     A gruta misérrima que lhe serviu de alcova, as oferendas dos simples, as perseguições dos fortes, a lucidez da sua inteligência, a grandeza dos seus ensinos, a simplicidade da sua vida, a pureza do seu afeto, a austeridade da sua ação, a gravidade do seu porte, a santidade do seu exemplo, a abnegação da sua personalidade, o desinteresse do seu sacrifício, tudo revelado exuberantemente, no seu conjunto, e no detalhe de cada ato, no sentido de cada palavra, na profundeza de cada conselho, subjuga-nos. E enquanto é Ele que aciona a sua vontade e dispõe do seu querer, a sua epopéia é o que há de mais belo, de mais comovidamente simples e puro.

     De todo o seu ser evola-se um perfume de pureza inigualável; uma luminosidade cariciosa o nimba; e nós ao contemplá-lo, sentimos a inefável consolação, que só nos é dada pela felicidade íntima e tranquila da nossa admiração e do nosso amor.

     Desde, porém, que a traição da amizade o entrega à injustiça e ao ódio humanos, e que de ator emocionado passa a ser vítima, ator emocionante, a sua vida começa a ter a solenidade de tragédia suprema, e a nossa alma confrange-se, arrepela-se, amesquinha-se, como se fosse comparte na injustiça máxima que enodoou a humanidade.

     Enodoou! E enodoaria?...

     Para que veio Jesus ao mundo?

     Para o redimir.

     Como havia de redimi-lo?

     Deus o sabia.

     O Cristo, que foi, é e será o maior espírito que mergulhou na treva da carne, não podia ser uma entidade desconhecida ao Pai.

     É isto incontroverso.

     Sendo assim, é óbvio que tudo que lhe sucedeu tinha de suceder. Era o Pai quem o queria. Era indispensável que fosse.

     Tinha de nascer humilde e ignorado; ser perseguido antes de nascido, e de passar da Terra por modo que essa passagem se assinalasse pela maneira mais inconfundível, mais emocionante, mais horrível que a olhos humanos fosse dado ver e ao pensamento fosse dado abarcar.

     Se se não destacasse, em tudo, do comum da humanidade, não seria mais do que os outros homens, confundir-se-ia, como os dias se confundem, como se confundem duas gotas de água; e dele não resultaria exemplo nem memória que ultrapassasse, na razão humana, o limite que se concede ao possível das ações extraordinárias.

     Logo, os que o mataram injustamente, foram instrumento - mero instrumento - dos desígnios de Deus; foram a coisa de que Ele se serviu para gravar, indelevelmente, na consciência universal e eterna, a palavra que transmitia ao homem pela boca trêmula do seu Filho Amado.

     Deus queria transmitir ao mundo, pela palavra que falasse ao coração e pelo exemplo que falasse à vista, a idéia de amor ao próximo até ao sacrifício máximo;  da humildade e da resignação até à miséria maior de nascer nas palhas de um estábulo, viver da esmola cotidiana, e morrer injustamente supliciado pelas suas doutrinas, no lugar de um Barrabás ladrão.

     Não podia o Pai ter evitado isso?

     Podia.

     Não o evitou; - porquê?

     Porque queria que fosse assim.

     Jesus reconheceu-o quando na hora da amargura disse:

     "Pai, faça-se a tua vontade!"

     Sem o ato maldoso e injusto da crucificação de um justo e inocente, não se completaria a redenção da humanidade. As idéias do Cristo, sem terem sido argamassadas com o sangue generoso do seu evangelizador, não teriam resistido, não se teriam espalhado, incrustado na própria humanidade, como gérmen fecundante de tudo quanto há de belo, de tudo quanto há de grande, de altruísta, de livre, de puro e de santo!

     A consciência humana assim o compreendeu glorificando a cruz, que foi o instrumento ignominioso do suplício.

     Qual é o modo como se simboliza a redenção?

     É pelo Cristo pregado na cruz, chaguento, cravejado, coroado de espinhos, desnudado, macerado, flagelado, escarnecido.

     E porque se simboliza assim?

     Porque se reconhece que assim foi que ele consumou a sua obra. Sem esse ato derradeiro ficaria incompleta; a redenção não se efetuaria; logo, quem consumou aquele ato necessário, indispensável, fatal, foi o cooperador do Salvador, foi o instrumento indispensável e fatal para a terminação da sua obra.

     Fez o que era preciso que fizesse.

     Se a cruz que serviu para infamar um inocente é glorificada e entrou na religião nova como símbolo augusto, porque se há de maldizer eternamente a populaça que pôs por obra a vontade Suprema?

     Os homens, na sua cegueira e na sua inconsciência, eram uma coisa, como coisa era o o tosco madeiro em que o rabi foi cravado.

     Tinham o seu lugar marcado na cena final da libertação humana, como o haviam tido, no decorrer  da preciosa vida que se extinguia, os pastores e os magos que assistiram ao nascimento; as proclamações de Herodes que o perseguiram por ocasião de Ele nascer; os doutores da sinagoga com quem discutiu a lei; os leprosos e os endemoninhados dos caminhos que curou; os apóstolos de condição humilde que lhe recolheram e difundiram a palavra luminosa, que havia de irradiar pelas eras cheias de gerações, como o Sol pelo espaço marchetado de mundos; as mulheres que o amaram e choraram, para transmitirem a essas gerações a doçura da sua voz, a unção da sua palavra, a emoção do seu amor, o calor do seu perdão.

     Eram fatos e figuras insupríveis no grande quadro, na descomunal epopeia da vida do Cristo.

     Nada mais simples do que essa vida.

     Um profeta que fala aos rudes em uma linguagem toda feita de amor e de perdão; que lhes aconselha que sejam bons, e a que desprezem o gozo imoderado dos bens terrenos, se querem ser com Ele na casa de seu Pai; que persuade e vence pelo carinho; que só com a suavidade da sua palavra, a santidade do seu exemplo, a promessa de uma vida futura, faz tremer os fariseus, os escribas da lei, os centuriões da Roma invencível; que atravessa o mundo sem lar, bebendo a água das Samaritanas, comendo as viandas dos publicanos, fazendo-se adorar pelas crianças e pelas mulheres; que se deixa atraiçoar, prender, flagelar, escarnecer, esbofetear e crucificar entre ladrões, sem um protesto, sem uma indignação; tendo só nos lábios palavras de súplica em favor daqueles, que, cegamente, o condenavam e martirizavam, é bem um ente sobrenatural, destinado a que na simplicidade  da sua vida nada houvesse de simples que o confundisse com nenhum outro homem, vindo ao mundo até então, ou a vir depois de sua morte.

     Na angustiosa agonia do seu corpo carnal, bem compreendia que aqueles que lhe dilaceravam os tecidos, que lhe amarguravam os derradeiros instantes da vida terrena, eram irresponsáveis pelo que faziam.

     "Perdoai-lhes, Pai, que não sabem o que fazem!"

     E não sabiam, não! Não sabiam que estavam consumando o último ato da redenção humana; que o sangue que faziam gotejar das feridas do Justo vinha lavar as máculas da Humanidade; que os últimos clarões dos olhos moribundos de Jesus ficavam iluminando o mundo; e que os suspiros, estrangulados pelo estertor eram o hino clamoroso de uma nova época, que ia surgir  para a liberdade, para o amor e para o progresso!

     Não sabiam, não! Não sabiam que sem a sua ferocidade inconsciente, sem o seu desprezo pela justiça, sem a sua intriga, sem a sua traição, sem os seus excessos de crueldade, Cristo não podia deixar a Terra, as profecias não se cumpririam, Ele não seria o Messias desejado, a sua doutrina não avassalaria o mundo, não iluminaria as consciências, não aperfeiçoaria as almas, não amaciaria durezas, não desarmaria ferocidades, não nivelaria raças, não igualaria os homens, não elevaria a mulher, não exalçaria os humildes, não perdoaria aos pecadores, não consolaria os que sofressem, não ampararia os fracos, não encorajaria os tímidos, não abriria, enfim, de par em par, as portas da perfeição espiritual para a grande vida universal, aqueles que, de boa fé e de boa vontade, o amassem e seguissem.

     Não sabiam, não! não sabiam que sem os golpes dos seus açoites, a cravagem dos seus pregos, as feridas das suas lanças, a ironia das suas inscrições; as blasfêmias dos seu insultos, a injúria da sua cana, o travor do seu fel, a acidez do seu vinagre, os espinhos da miserando coroa com que ornamentaram a mais pura fronte da raça humana, a missão do Filho de Deus não se teria  completado, os apóstolos não teriam ensinado ao mundo a doutrina pura, o homem não o creria um Deus; o seu nome não representaria a salvação e a sua obra estaria perdida, sepultada nos escombros de Jerusalém ou nos terrenos áridos e queimados da Palestina.

     A sua obra completou a obra do Salvador.

     Consummatum est. Estava tudo feito.

     A vós todos, judeus infamados, corações empedernidos, espíritos obcecados, eu vos bendigo, porque fizestes com que eu, dois mil anos após a vossa crueldade, amasse e servisse ao Mestre, ao Justo, ao Filho amado do Pai de nós todos; porque com o vosso ato brutal, fero, inconcebível, legastes à eternidade, à vida universal, a página mais grandiosa, mais divina, de todas que na grande história da Humanidade podem existir.

     Eu vos bendigo, raça execrada, povo escolhido de Deus, pátria do meu Jesus, foco irradiante da luz mais esplendorosa que tem iluminado o mundo, o cérebro e o espírito!

     Eu vos bendigo!

(*) = Endoenças = conjunto dos ofícios religiosos da Quinta-Feira Santa.