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Pégasus e seu dono Belerofonte      

O HOMEM ASTRAL

 Nota do compilador: Trata-se de trecho da obra "Na Sombra e na Luz", onde um espírito confessa suas emoções. Após uma vida de sofrimentos como encarnado, em função de seus erros em vidas anteriores, ele recebe, enfim, os benefícios da Grande Lei.

     "Por fim, deixei de ouvi-lo. Meu corpo se enregelou inteiramente, fez-se rija estátua de gélido alabastro; minhas pálpebras cerraram-se fortemente numa última contração, para todo o sempre - como a tela que desce sobre o derradeiro ato de um drama pungente, para ocultar aos espectadores um cenário desolado e sombrio - vendando meus olhos onde só trevas houvera.

     Cessara o eclipse para minh’alma, que cumprira uma das suas mais acerbas provações. Ela fora mondada1 de todas as urzes nocivas, sulcada pela charrua da dor, arroteada, enfim, para o cultivo de todas as virtudes, para que germinassem em seu seio, como searas divinas, todas as potências psíquicas, flores imortais que desabrocham nos páramos etéreos e que engrinaldam a fronte dos justos, dos habitantes siderais, flores cujas pétalas são feitas da mesma luz inextinguível que jorra do âmago das estrelas.

     Findou-se assim a minha existência planetária, aos dezoito anos de idade, dez meses após o passamento de Jeanne. É que, meu amigo, nossas almas não se adoravam menos que as de Castor e Pólux2 - um dos mais belos símbolos do amor fraterno - e, acendradas pelo sofrimento e pelas lágrimas em caudais fecundos, remidas dos trágicos delitos de suas precedentes encarnações, não mais precisavam das lapidações terrenas. Aprouve por isso ao Onipotente, sempre magnânimo, que a nossa separação não fosse longa e, com a sua misericórdia infinita, abençoou, afinal, a nossa inabalável e perpétua aliança!

     Eis-me de novo no Espaço, no pélago do éter e das constelações, de regresso de uma das mais penosas existências, em que minh’alma executou em surdina a sinfonia da dor e do pranto ignorados.

     Logo que se quebraram os liames fluídicos que me retinham o espírito preso aos tecidos corporais, ligeira perturbação me obumbrou as potências anímicas. Em branda letargia imergiram todas as minhas faculdades intelectuais. Esse estado, entretanto, não se podia comparar com o aniquilamento, com o torpor e da inquietação que sobrevieram quando findou a vida planetária de Paulo Devarnier.

     Desta última vez, parecia-me estar sob o império de um grato anestésico. Embora um pouco aturdido, percebi que era transportado carinhosamente nos braços intangíveis de um ser que, conquanto vagamente, dava-me a impressão de não pertencer mais ao mundo cujos umbrais misteriosos acabava de transpor.

     Umbrais misteriosos, digo bem, porque quer se trate de entrar na vida terrena, quer se trate de sair dela pela morte, sempre os transpomos adormecidos, empolgados por um sonho aprazível ou doloroso. Tive, depois, a sensação de estar cindindo os ares, ascendendo velozmente para uma região ignota. Apesar de me não achar na posse plena das minhas faculdades, julgava-me venturoso e aguardava serenamente o julgamento de todos os atos que praticara durante a existência em que estive privado da vista, por sentença emanada do supremo tribunal divino.

     Inigualável bonança, eflúvios de alegria e de paz me invadiram docemente o ser. Não tinha a toldar-me a tranquilidade da consciência a mais tênue sombra de remorso pela transgressão dos deveres humanos e espirituais. Regozijava-me por me haver submetido aos decretos do Onipotente, por não haver conspurcado meus lábios com alguma blasfêmia; por ter cumprido, quase austeramente, a minha pungentíssima missão terrena. Era, pois, tranquilo que me recordava de quase todos os episódios da última encarnação, não tendo a vergastar-me a consciência o látego do remorso, parecendo-me que superara os óbices, nos momentos das lutas morais.

     Tudo isso me passou pela mente, enquanto ia sendo conduzido por uma entidade protetora, como pelos tutelares braços maternos um infante adormecido, sem descerrar as pálpebras. Estranha força me obrigava a conservá-las fechadas, como se ainda estivesse cego. Depois, senti que me depositavam docemente sobre um solo relvado, macio, como que feito de pelúcia ou arminho. Um estremecimento me agitou todo o ser. Logo, pude erguer-me e abrir os olhos.

     Amigo! Há impressões que jamais poderemos traduzir, por serem inexpressivos os vocábulos. Falta-lhes o colorido sem o qual não logramos exprimir os sentimentos que nos tumultuam dentro d’alma, nas horas de emoções intensas! Fácil, porém, vos é compreender o que comigo se passou! Oh! poder, enfim, após quase quatro lustros em que tive os olhos sempre enlutados, contemplar a Natureza, num desabrochar radioso de manhã primaveril, em zona equatorial; poder mergulhar a vista na amplidão sidérea, pincelada de ouro e nácar diluídos nas fráguas do Criador do Cosmos! Depois da treva, da sombra, da penumbra, do eclipse, um arrebol! a Terra em flor, a luz volteando em jorros pelo Infinito, numa profusão digna do Senhor do Universo!

     Cessara a cegueira que me obscurecia até a própria alma, porquanto esta, constrangida na tétrica prisão carnal, raras vezes vislumbrava efêmeras alvoradas, rápidos crepúsculos, fugazes meteoros que passavam, deixando-a ofuscada e caliginosa.    

     Saber que terminara, afinal, a acerba prova com que a Providência aferira a minha resignação e a minha humildade; recobrar um dos mais belos atributos espirituais - o da penetração visual; poder admirar a Natureza, as maravilhas que a embelezam, os astros irisados que fulgem no firmamento, formando uma gama portentosa de colorações, de cambiantes, que deslumbram as faculdades enfraquecidas daquele que apenas acordou do sono tormentoso que se chama - vida terrena, oh! que ventura! Considerai tudo isso e compreendereis, bom amigo, o júbilo que de mim se apoderou.

     As horas decorriam com assombrosa rapidez e não me fatigava de fitar o que me circundava, de embriagar-me na contemplação das flores silvestres, dos vegetais, da amplidão azul, zimbório cinzelado num só bloco de turquesa. Pus-me a sondar tudo quanto a vista alcançava, desejando orientar-me a respeito do local  a que me haviam levado. Em que região do globo terrestre estava eu?

     Sabia apenas que me encontrava no cimo de uma cordilheira gigantesca. Era alvo condor feito de brumas e pousado no dorso de descomunal megatério, que os séculos petrificaram. Apesar das névoas que a embuçavam, semelhantes a um cendal de gaze tenuíssima, de brancura açucenal, minha visão, decuplicada, varava uma extensão incomensurável. Ao longe, descortinava um oceano undoso; singravam-no inúmeras embarcações, com as suas velas desfraldadas, banhadas de sol. Assemelhavam-se a um bando de alcíones, brancos, aninhados nas vagas com as asas longamente espalmadas para o Além.

     O nevoeiro que me cercava no cume da serrania, atravessado por farpas luminosas arremetidas do Levante, se desfez aos poucos, desvendando o horizonte róseo, de um matiz incomparável de flores de macieira ou de eloendros desmaiados. Apolo inflamou, então, com espadanas douradas, toda a Natureza, que cintilou por entre fulgurações de diamantes em combustão, liquefeitos, ainda coruscantes. Admirava-me de conservar latentes na memória todos os conhecimentos e toda a nomenclatura das coisas, todo o acervo de recordações de passadas eras, em que não ignorava as formas, nem as cores de quanto a Terra contém. Surpreendia-me o verificar que subitamente se reavivaram todas essas percepções, como que ao mando de um condão mágico.

     O tempo deslizava celeremente e eu me não saciava de admirar a Criação que é amar o Arquiteto do Universo, é tributar-lhe uma homenagem sincera, tácita, inexprimível; é erguer-lhe, do dédalo do nosso ser, uma prece silenciosa que escala o Espaço, evolando-se do nosso imo como das corolas fragrantes se desprende o aroma que transpõe os ares em ondas de delicioso perfume, até atingir o próprio céu.    

      Começou a anoitecer lentamente. O Ocidente, numa apoteose crepuscular, parecia incendiado por um Nero que, montando alado Pégaso3, galopasse pelo Infinito, numa ânsia louca de Arte suprema. Depois, como se potentes duchas invisíveis jorrassem sobre as rubras e áureas labaredas, ateadas havia poucos instantes, o fulgor do Ocaso foi empalidecendo, desmaiando, até se extinguir de todo, tornando-se cinéreo, figurando colossal forja apagada.

     Qual cortina que oculta um cenário infindo, as sombras velaram então, por alguns momentos, os píncaros da cordilheira em que me achava sem outro pensamento que o de explorar o que me rodeava.

     Morosamente o céu principiou a porejar sóis, primeiramente isolados, depois em profusão maravilhosa. Eram exércitos lúcidos mobilizados no firmamento, em marcha cerrada e vitoriosa para uma conflagração de nuvens, brandindo baionetas coruscantes.

     Do mesmo passo que iam surgindo, o solo também ficava salpicado de luz, porque os lampejos esvoaçavam sobre os vegetais como minúsculas e aladas estrelas de esmeralda, caídas do domo sideral, ensaiando graciosos volteios aéreos.

     As constelações me fascinavam: eram punhados de ouropéis disseminados copiosamente pela amplidão etérea, mais nalguns pontos do que noutros, e as argênteas nebulosas me davam a impressão de que miríades de astros haviam sido triturados numa ciclópica mó, reduzidos a poeira que, em seguida, em harmatão4 desenfreado espargira pela cúpula celeste, formando a via-láctea, que a cinge de um polo a outro, qual Arco de Triunfo posto sobre a Terra, por onde as almas sonham ascender, supondo-o a estrada do ideado Paraíso. Mirando os primores divinos, em minha mente irromperam ideais retrospectivas, de uma romaria prodigiosa através do Empíreo.

     Aos poucos, todas as recordações se aviventaram, todas as cenas de meu último avatar se desnudaram. Então pensei longamente em meu pai, que ficara muito além, a carpir decerto a minha ausência. Enterneci-me e as lágrimas gotejaram de meus olhos. Se algum habitante planetário me ouvisse agora, talvez sorrisse, indagando desdenhosamente:

     - Quê! Como pode existir a lágrima, quando os órgãos estão verminados no âmago do sepulcro?

     Ai! é que esse ente ignora ainda que o sentimento não medra da matéria, que o pranto não se gera nos vasos lacrimais, que ele nasce na alma, que o expele gota a gota, quando emocionada ou entristecida. O sentimento a acompanha, espaço em fora, porque ela é a sua sede. Podemos assim chorar mais copiosamente depois de desmaterializados do que com o espírito encerrado no ataúde carnal. As lágrimas são átomos da nossa própria alma, quando a dilacera a dor.    

     Comovido, pois, com a recordação do mísero paralítico, empolgado pela magnificência do firmamento, ajoelhei-me e, por muitas horas, na calada da noite, meus pensamentos se elevaram até ao sólio do Sempiterno, estabelecendo-se uma misteriosa comunhão entre eles e a vastidão cerúlea, como se um hífen os ligasse, ou como se galgassem um a um os degraus de luminosa escada.

     Após longas horas de meditação, no silêncio majestoso da noite, sob o esplendor da abóbada estrelada, foi-me surgindo nitidamente, no cenário da imaginação, o conhecimento exato de toda a minha última existência.

     Recordei meus raros contentamentos, meus grandes pesares, o pranto que vertera em momentos de amargura, os afagos de Jeanne, as lamentações e o sofrimento do nosso genitor; meus arroubos musicais, os aplausos que obtivera em instantes de sublime inspiração. Sentia-me venturoso, intimamente banhado de incomparável tranquilidade. Verdadeiramente reconhecido ao Altíssimo, tornei a agradecer-lhe a magnanimidade de que usara para comigo, o auxílio espiritual que nunca me fora negado nos dias aflitivos.    

     Se tivesse ao meu alcance um instrumento sonoro, uma harpa, um violino, um piano, comporia ali uma sinfonia consagrada ao Sumo Artista, tributando-lhe assim, em ondas musicais, toda a gratidão que de mim transbordava pelos benefícios que dele recebera.

     Ao conceber essa ideia, logo se me tornou visível um ente formosíssimo, de alvíssimas roupagens, postado à minha frente. Reconheci nele, por um rápido despertar de reminiscências, o meu amado Guia, o meu Inspirador divino. Certamente a ideia que acabara de corporificar-se na minha mente fora por ele sugerida. Sua presença iluminava o local em que me achava.

     Prosternei-me a seus pés, como o cristão ante um altar sagrado, sentindo-me vibrar de intenso reconhecimento. Ele, porém, se ergueu suavemente, roçando-me a fronte com a sua destra radiosa e logo, dadas as mãos e fitando o céu constelado, que começava a desmaiar aos primeiros albores do Oriente, fizemos juntos uma prece ao Incriado. Em seguida ele disse, com um timbre de voz que me era familiar e infinitamente melodioso:

     - “Não foram inúteis, felizmente, os meus esforços por te suster a alma, que pendia para o vórtice do erro e do ateísmo, por alçá-la aos páramos sidéreos! Atendeste fielmente às minhas inspirações, superaste intrepidamente os escolhos das árduas provas; nunca imprecaste contra as vicissitudes da sorte, nem contra o destino traçado por Aquele a quem aprouve dar-te a luz da vida sem a das pupilas, de ti ocultando toda a Criação, como se a envolvera em lúrida cerração, a fim de que dentro do teu ser se patenteasse um mundo, que desconhecias, o mundo subjetivo".

(Espírito Victor Hugo - Obra: Na Sombra e na Luz - Médium: Zilda Gama)

(1)=  Mondada: ervas daninhas que crescem entre as plantas cultivadas.

(2)= Castor e Pólux: heróis mitológicos, filhos de Zeus e de Leda; transportados para o céu, tornaram-se a constelação dos Gêmeos. Simbolizam a amizade.  

(3)= Pégaso: (Mitol. gr.) - Cavalo alado, nascido do sangue de Medusa, morta por Perseu. Havendo feito brotar, com uma patada, a fonte Hipocrene - Tornou-se símbolo da inspiração poética.

(4)= Harmatão: vento quente e seco que sopra na África ocidental no verão. (Notas do compilador).

NÃO HÁ NENHUM PENSAMENTO, POR MAIS SECRETO, QUE NÃO SE ARRAIGUE NO ESPÍRITO, FORMANDO CARACTERES INAPAGÁVEIS, TELAS ETÉREAS, BAIXO-RELEVOS FLUÍDICOS, DE DURAÇÃO PROLONGADA.

                                                                                            PRÓXIMO                                                                                                                         INÍCIO

   Fonte Hipocrene no Monte Hélicon  -  www.wikipedia.org