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ESPÍRITOS ESTIOLADOS*                              

     A favela não são as casas penduradas ao elo da esperança, nem é o mundo estranho dentro do mundo, a ilha de vergonha no mar da sociedade, ou como querem os sociólogos: “o câncer social em pleno organismo coletivo”, resultando do aviltamento do homem explorado por outro homem, graças à indiferença das leis, quando arbitrárias, e dos governos, quando insensíveis. A favela são as pessoas reunidas, os espíritos estiolados, que o cansaço e a fome, o ódio e a indiferença ressequiram, quase mataram, porque deixaram vivendo na morte lenta. Pouco importa o nome que tenha: “água-furtada”, “pátio dos milagres”, “mocambo”, “invasão”, “alagado”, “maloca”...

     Onde a desesperança se agasalha nos braços da rebeldia, gerada pelo desconforto social, unindo os espoliados físicos, econômicos e morais, aí está a favela. Sejam duas pessoas esquecidas, engendrando na miséria a criminalidade e a ignomínia, seja no grande conglomerado que constitui a arquitetura para o turismo ultrajante, onde se mesclam todas as paixões, aí estão as almas faveladas. Pode-se derrubar-lhes as casas, segregá-los ou amontoá-los nos bairros residenciais - para que eles esqueçam que são favelados -, eles continuam na favela interior da revolta e da ignorância. Da mesma forma que, transladando-se o enfermo do hospital para a casa, a fim de que olvide a doença, não se conseguirá que ele se sinta sadio e animado.

     Nesse mundo estranho, no qual as pessoas se identificam por propósitos íntimos (e pretéritos espirituais!) e se afinam pela linguagem das mesmas necessidades morais - rescaldos das existências transatas de espíritos calcetas no mal ou inveterados no crime -, os que não pertencem de fato àquele ambiente são identificados como persona non grata1.

     Desconfiados pela atribulada existência que levam, não confraternizam com esses estranhos que lhes não falam o dialeto nem possuem os trejeitos e as técnicas de sobrevivência. Detestam os que os vão olhar para encontrarem espairecimento na desdita deles e possuem o seu modus operandi2, ante as supremas agruras, e o seu modus vivendi3, com que sobrevivem, apesar de tudo.    

      Nos paroxismos da sofreguidão, pela ausência de tudo, constituem sociedade marginal, na qual há uma severa divisão de casta: mandatários e mandados, caçadores e caçados, exploradores e explorados. Os ricos possuem os casebres e extorquem renda, que lhes chega sem que sindiquem quanto às fontes donde procedem os recursos, e os pobres de todo lugar, menos “do Reino dos Céus”.

     Ali há uma justiça pessoal e os conúbios4 criminosos têm o seu próprio estatuto.

     O amor se mistura a expressões sanguinolentas e as paixões abrasadoras se traduzem nas manifestações primitivas e arbitrárias da posse, amparadas pela complacência dos membros da indiferente comunidade em que vivem.

     As necessidades transmudam-se em imperiosa luta pela sobrevivência a qualquer preço e a honra se torna medida pelo impulso da força dominadoras. Grassam as superstições e crendices que reduzem o homem à infância tribal, na vida tribal em que se encontra, não obstante o intercâmbio que mantém com a sociedade.

     Mães se fazem complacentes com os desregramentos dos filhos, desde que disso resultem benefícios, o que equivale dizer: sobrevivência à fome, à doença, à morte, já que outros benefícios não decorrem da união do crime com a corrupção moral. E, não raro, vendem as jovens filhas, entregando-as ao comércio da carne...

     Transitam, no entanto, nas primeiras experiências dos sentimentos quase todos esses espíritos, que aportam à carne, na sua grande maioria, em tentames iniciais de luta contra o instinto, na imensa escalada da evolução. Outros, porém, são calcetas do erro, retardatários passivos da estrada do progresso, que teimosamente preferem expungir sem libertar-se, demorando-se largamente na roda das sucessivas reencarnações inferiores. Outros mais são réprobos que retemperam o ânimo para novas lutas, sob o benefício da expiação redentora, transferidos de uma região de sombra e dor do mundo espiritual, em que se encontravam, para outra de dor e sombra na Terra que os beneficia.

     Aguardam todos eles socorro social e moral, assistência espiritual basilar e educação para enrijarem as fibras do caráter e do sentimento, saindo das baixas sensações perturbadoras para os ensaios da emoção santificante.

     Indubitavelmente, demandará tempo esse processo renovador.

     Irmãos nossos na retaguarda esperam mãos amigas e concurso eficiente em nome do Excelso Amor.    

     Além deles, porém, e fora dos círculos das favelas, outros espíritos, do mesmo quilate e lavor, intumescem-se no crime e refestelam-se nos desmandos, contribuindo, pela usura e miasmas mentais, para a permanência daqueles antros coletivos que são a mancha aparvalhante característica dos fracassos da técnica que perdeu o contato com Deus, enlouquecendo, em consequência.

     O homem atestará a vitória da sua cultura ética quando resolver os problemas da miséria social e aniquilar os quistos cancerosos das aglutinações de seres em regime de promiscuidade animal... (Espírito Victor Hugo - Obra: Párias em Redenção - Médium: Divaldo Pereira Franco).

Notas do compilador: (*) = Estiolados: enfraquecidos, debilitados.

1 - Persona non grata = Pessoa que não é bem recebida;  2 - Modus operandi = Modo de operar, de trabalhar;  3 - Modus vivendi = Modo de viver;  4 - Conúbios = União, aliança, casamento. (Notas do compilador).

                                                                                                                                                       PRÓXIMO                                                                                                  INÍCIO

OS ESPÍRITOS ATRASADOS TÊM ENVOLTÓRIOS IMPREGNADOS DE FLUIDOS MATERIAIS. SENTEM AINDA DEPOIS DA MORTE AS IMPRESSÕES E AS NECESSIDADES DA VIDA TERRESTRE. A FOME, O FRIO E A DOR SUBSISTEM ENTRE AQUELES QUE SÃO MAIS GROSSEIROS