Évora - Foto iap

Imperador Henrique IV humilhando-se diante do papa Gregório VII para que a sua excomunhão fosse retirada, em Canossa-Itália no ano de 1077

 

EÇA RESPONDE AOS CRÍTICOS  

    

     A frase mais verdadeira que tem ressaltado de toda a apreciação feita ao livro1, foi a do humorista que disse admirar-se de que nós ainda tivéssemos paciência para gastar cera com ruins defuntos, dando notícias para esse mundo.

     Não será justa, talvez, para aqueles que, como o Camilo2, tenham a satisfazer uma exigência imperiosa do seu dever de amigo, ou como o Gomes Coelho, que na sua doce idealogia de bom, ainda alimente a ilusão de que a sua palavra suave possa dar rebate a consciência aí mal encaminhada; mas para mim, que não possuo ilusões sobre o bípede bicho, enfermiço de todos os defeitos, que na Terra se pavoneia com o pomposo título de Rei da Criação, ajusta lindamente a casquinada de troça que aquela judiciosa observação representa. Há, porém, uma coisa que me consola. É a de que não fiz por ignorante. Foi para condescender contigo.

     Se não fosse a nímia3 complacência com que a minha amizade póstuma te quis mimosear gentilmente, não seria eu quem gastasse o mais miserando coto de sebo a alumiar os sábios, meus confrades em letras, que se arrogam o privilégio exclusivo do saber, do juízo e do bom senso. Deus me livrasse de outras temeridades, que dessa me livraria eu.

     Nem pelo cérebro me passava a ideia de vir meter-me a redentor, nem de envergar o burel da penitência e calçar as sandálias dos ascetas.

     Dirigir epístolas aos Coríntios, só S. Paulo; e nem sou S. Paulo, nem os meus companheiros, ilustres pés de boi e prendados conselheiros, são coríntios.

     Nos meus escritos, que não são inicialmente outra coisa que desenfastiadas palestras contigo, tenho feito referências frisantes à minha incredulidade na eficácia do processo que se estava adotando para embarrelar almas, aí incrustadas em lama, que nenhuma lixívia será capaz de fazer brancas.

     Conhecia muito bem os gentios para quem se estava falando.

     Já quando aí estava e escrevia, me não iludia sobre o resultado provável do meu trabalho.

     O resultado havia de ser inútil e o trabalho estéril.

     Se algum pesar sinto pelo que fiz, é o de não ter posto mais acidez aos manjares literários que cozinhei.

     Coisa que não envenenasse; porque para fazer dano nunca tive queda; mas para acidular um pouco mais o sangue-capilé4 que irriga frouxamente as circunvoluções cerebrais dos  plumitivos5 que leem e escrevem português. Talvez que assim se lhes acentuasse melhor o paladar literário a meu respeito, para não me confundirem agora com aqueles com quem, em bela e fraterna camaradagem, acompanho no livro; e a todos nós contigo próprio.

     Os críticos, que desfraldando o estandarte da negação e revestidos das suas armaduras de aço adamantino, têm vindo ao terreiro terçar armas em combate, não merecem resposta como críticos.

     Como individualidades literárias, serão muito boas pessoas, excelentes cidadãos e fulgurantes escritores. Serão tudo isso e o mais que a minha inópia6 não vê e a sua vaidade deseje; mas como censores a quem cabe a missão de analisar, apreciar e discutir um fato novo, que ante os seus olhos aparece; ou como pegureiros7 encarregados de guiar esse enorme rebanho de ovelhas humanas, que esperam a palavra oracular dos sábios para formar o seu juízo, estão abaixo da minha mais condescendente apreciação.

     Convenho em que, se o fato é novo, não podiam ter a necessária preparação especial, para que, logo que ele aparecesse ao seu critério, o apanhassem, esquartejassem e dependurassem, como um magarefe8 hábil faz a um suíno morto; mas se não sabiam e se sentiam em si próprios alguma parcela dessa centelha divina com que Deus marca e distingue os cérebros destinados a guiarem aí o pedestal em que se colocaram ou foram colocados (que de barato e a seu contento dou a escolha), a missão que dizem desempenhar e a causa de que presumem ser servidores, estudassem, profundassem, ponderassem criteriosamente, e, depois, armados e fortalecidos com a autoridade que lhes dava o valor do próprio esforço, dissessem o que lhes aprouvesse, sob a orientação em que o seu espírito se houvesse norteado.

     Teriam assim bem merecido de todos: - de nós, ainda que nos negassem, daqueles que pretendessem elucidar e encaminhar, e deles próprios.

     Agora, com argumentos de ki ki ri ki e risinhos de imbecibilidade em guisa de finura, só merecem o soberano desdém, que neste momento lhes faço.

     Em verdade devo confessar que, nem o fato que a aparição do livro representa, nem as manifestações que ele contém, são de vulto a despertar interesse naqueles sábios ilustres e não ilustres, que aí têm o seu juízo feito sobre o insignificante problema de que ele trata.

     Comunicações do outro mundo! Ora! Contos da Carochinha, superstições de velhas e de boçais, indignas do século XX, como dirá qualquer ilustre sapateiro d’aldeia, guindado, mercê de Gutenberg, à categoria de filósofo positivista da atualidade.

     E... que dizem essas comunicações?

     Coisas reles, ínfimas, banais...

     Que importava que a servir-lhes de pedestal estivessem os nomes de Herculano, Camilo, Vieira, Hugo e outras quejandas9 nulidades?

     O que vale o que eles disseram ao pé do prodígio que representa o português vernáculo e castiço, a facilidade e a fluidez da exposição, a grandeza da concepção, a profundeza do conceito, a beleza da forma, a sutilidade do espírito, o aticismo10 no dizer, com que se topa correntiamente11 na moderna literatura portuguesa, nomeadamente no jornalismo - constelação zodiacal onde refulgem as estrelas de primeira grandeza, que tão generosamente se dignarem apreciá-los e classificá-los?

     Na prosa, o que o livro contém, não vale um chavo.12

     Sandices sem gramática, português de rol de tenda, má sombra de ruim decalque do que aí deixamos escrito.

     No verso, os do João,13 banais, errados, imitação de pacotilha,14 falhos de ideação, sem valor, coisa um pouco menos do que aqueles que a fome engendra para embrulhar os rebuçados de ovos.

     Versos belos, obra perfeita, lapidar modelo de joalharia poética, só os que faz o seu crítico.

     Que os outros lhe não vissem a alma a envolver os versos, vá. Há aí videntes que nem com a luneta de Greenwich são capazes de ver o convento de Mafra15 a cem metros de distância. Mas aquele crítico...

     Enfim, concedo de boamente que todos têm razão.

     Este - todos - é relativo, bem entendido, àqueles de quem tenho vindo falando. São os que negam, são os espíritos fortes, os que se riem de ti e de nós, em uma olímpica manifestação de superioridade; os que te acharam pouco mais de que idiota em acreditares em almas do outro mundo, e a nós pouco menos do que cretinos em escrevermos as bugiarias16 que o livro contém.

     Todos, são esses deliciosos críticos que, para te personalizarem e desmerecerem, engendraram, em poucas palavras catedráticas, um consciencioso juízo crítico, que representa a ductilidade, a transparência e a beleza do pindárico17 ornamento bovino, tanta vez enaltecido, como símbolo, pelo Silva Pinto.

     E a propósito:

     Não foi Silva Pinto homem que gostasse nunca muito de mim. Guiava-se pela folhinha do Camilo, folhinha onde eu não tinha marcado dia santo; o que não impede de lhe querer também muito, agora, que o Camilo reformou a sua velha folhinha por outra que ambos presentemente lemos, onde os santos são comuns, e as orações iguais.

     Este querer aumentou ao ver que o antigo lutador, que, mal equilibrado nas pernas frouxas, ainda bem se encobre com a adarga18 e maneja rijamente o montante, não esteve com meias medidas. Duvidou até lhe chegar à conta. Chegou, deu tento de si, atirou por sobre os moinhos com os seus escrúpulos de consagrado, e veio ao terraço, como um arauto antigo, gritar aos que passavam que tinha recebido notícias do seu Camilo, do seu grande Camilo; e que era muito dele a alma, a grande alma, que sentia palpitar, ofegante, amiga, receosa, nas trinta e tantas páginas que daqui lhe dirigia aquele que para sempre supusera morto!

     Não cito o Silva Pinto mais do que para minha própria satisfação. Minha e tua.

     Não é Silva Pinto homem que sirva para exemplo aos espíritos fortes em quem estas futilidades não abrem brecha.

     Que vale o Silva Pinto em confronto com os talentos críticos, sumos sacerdotes da sapiência (a quem presto rendido culto), e que, num assomo de serena justiça e de pulcra verdade, capitularam de sandices e de banalidades o que dissemos?

     Seguramente compreendes que não levanto estes juízos feitos. Acho-os justíssimos.

     Os outros, os que acharam notável o livro, fosse qual fosse o aspecto por que se encarasse, esses são uns imbecis como nós.

     Não conhecem português, não conhecem gramática, não conhecem literatura, não conhecem filosofia, não conhecem nada.

     Os que o tomaram, realmente, como manifestação nossa, como luminoso clarão irrompido subitamente do escuro misterioso que rodeia a Morte, levando a uns a certeza da existência da Alma, a outros a esperança numa provável felicidade; e ainda a outros a dúvida à sua indiferença; abrindo-lhes os olhos, enchendo-lhes os corações, deslumbrando-lhes os cérebros; - estrada de Damasco para alguns, Canossa19 para muitos, Consolação para todos; Aurora para os que vivem na noite da Descrença e do Desespero, - esses são uns simples, uns ingênuos, a quem a tua gananciosa charlatanice conseguiu mistificar...

     Desses tenho dó.

     Como os seus cérebros se acham avariados! Dão-me a ideia de múmias do passado; de piedosos ignorantes vindos, dormentes, das regiões da fé antiquada, dos confins da Índia misteriosa, ou das escusas catacumbas romanas, ressuscitar em pleno século do progresso, no templo luminoso da Sabedoria Humana, onde o Ateísmo é o Sacerdos Magnus!

     Haver alguém que possa acreditar em Deus e na Alma! Haver quem creia como natural que nós possamos ainda pensar, falar e agir; que proclamemos o Desinteresse, a Abnegação e o Amor, na época vertiginosa e estonteante em que se dignifica o Egoísmo, em que se proclama a Negação, em que se diviniza o Orgulho, e em que o Positivismo, transpondo num voo o espaço máximo que vai ao seu polo extremo, se entrelaça com o Nada, para se negar a si próprio! Pobre deles, que são criaturas dum misticismo mórbido, com a concepção doentia de cérebros imperfeitos.

     Vês? Achei a nota. Cérebros imperfeitos, é o que vocês são: - tu e os que te acreditam.

     É uma deliciosa maneira de vos chamar loucos, e de não contrariar os preclaros espíritos fortes que se sorriem piedosamente, desdenhosamente, ao verem o vosso atraso mental, a vossa pieguice de coração, a vossa achacada sentimentalidade, o vosso ar antigo de crentes duma época extinta, em exposição no Pandemônio da Civilização Hodierna.

     Que se sorriem?

     Sabem lá sorrir, essas personalidades estéreis, que destilam intransigência, que tressuam20 inveja, que refocilam na materialidade, sem um arroubo de ternura, sem uma iluminura de fé, sem um ideal que vá além da mesa onde repastam, da cama onde ressonam e da mulher que as estonteia?

     Sabem lá sorrir, os que passam a vida a proclamar a sua igualdade material ao asno na necessidade fisiológica, à fera na satisfação do instinto, e à matéria inerte no destino finito, único, inultrapassável, do seu ser, da sua inteligência, da acumulação secular do seu saber, da vida anímica e misteriosa do afeto, das aspirações insaciáveis de progresso e de perfeição, em que se constitui a grandeza infinita do espírito humano?

     Sabem lá sorrir? (Espírito Eça Queirós - Obra: Do País da Luz - volume 2 - Médium: Fernando de Lacerda). 

1) O autor refere-se ao primeiro volume de “Do País da Luz” - 2) Trata-se do Espírito Camilo Castelo Branco - 3) Nímia= excessiva - 4) Sangue-capilé= Sangue misturado com uma bebida feita de água adoçada com xarope - 5) Plumitivos= jornalistas; escritores - 6) Inópia= penúria - 7) Pegureiro= Cão pastor; guardador de gado - 8) Magarefe= o que mata e esfola reses no matadouro; mau cirurgião - 9) Quejandas= que tem a mesma natureza ou qualidade; que tal - 10) Aticismo= Elegância e sobriedade de linguagem - 11) Correntiamente= correndo com facilidade; usualmente - 12) Chavo= Moeda insignificante - 13) João= Refere-se ao poeta João de Deus - 14) Pacotilha= Porção de gêneros que os passageiros de um navio podem levar consigo sem pagar transporte deles - 15) Mafra= Vila e sede de Concelho (circunscrição administrativa - Lisboa) - 16) Bugiarias= Modos de bugio (macaco) - 17) Pindárico= De Píndaro, poeta lírico grego; fala em estilo empolado - 18) Adarga= Escudo oval de couro - 19) Canossa= Aldeia da Itália onde o imperador Henrique IV se humilhou diante do papa Gregório VII (1077); passou a significar: Humilhar-se diante do adversário - 20) Tressuam= suam muito; verter suor. (Notas do compilador).

DEMÔNIOS  SÃO  ESSES  HOMENS  HIPÓCRITAS  QUE  FAZEM  DE  UM  DEUS  JUSTO,  UM  DEUS  MAU  E  VINGATIVO,  E  CRÊEM  LHE  SEREM  AGRADÁVEIS  PELAS  ABOMINAÇÕES  QUE  COMETEM  EM  SEU  NOME

                                                                                                                                     PRÓXIMO                                                                                                                                 INÍCIO