Original de "A Última Ceia" de Leonardo da Vinci - Igreja Santa Maria da Graça - Milão - www.wikipeia.org/   

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DOZE HOMENS CONTRA O MUNDO!

     A estranha história do que aconteceu numa manhã de Páscoa e sua mensagem para a humanidade.

 

Na  manhã  de Páscoa, em quase todos os países da face da Terra, milhões de fiéis vão reunir-se em igrejas dedicadas ao Carpinteiro de Nazaré e milhões de vozes vão cantar em honra da sua vitória sobre o pecado e a morte. Dizem-nos os cientistas que para cada efeito deve haver uma causa. Poderia alguma coisa menos sobrenatural do que a história da Cruz e do sepulcro vazio explicar efeitos tão estupendos?

 

É um fato indiscutível que há quase 2000 anos Jesus apareceu na Palestina. Os seus amigos o amavam e julgavam-no um profeta, talvez um rei. Os inimigos chamavam-lhe fanático e agitador. Mas ele vivia a vida perfeita do amor, exprimindo-se em atos de serviço dedicados a ricos e pobres. Sua ternura conquistava os corações das crianças e dos simples; sua filosofia de vida despertava o interesse dos mais sábios e dos melhores. Mas o seu destemido radicalismo encolerizou os que defendiam o princípio de deixar as coisas como sempre foram, e eles o crucificaram.

 

Ele não precisava ter tido tão cruel destino. Poderia ter evitado Jerusalém. Ainda ali poderia ter-se esquivado aos seus amigos, pois tinha muitos amigos. Poderia ter transigido, mas decidiu firmemente ir a Jerusalém, mesmo depois de avisado do que o esperava. E uma vez ali, enfrentou com ânimo o pior que puderam fazer-lhe: o ódio, a inveja e a ambição contrariada. O beijo do traidor a deserção dos seus mais caros amigos não lhe levaram aos lábios uma censura. A amarga zombaria dos sacerdotes, a insolência de Herodes, a criminosa covardia de Pilatos, a turba que apupava, a soldadesca brutal, nada disso lhe arrancou do coração uma palavra de raivoso ressentimento.

 

"Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem!" Foi essa a sua reação à tortura mental e física. Por sobre a tempestade de ódio e de perversidade, o seu espírito pairava sereno. Com o completo sacrifício provou a realidade do infinito amor.

 

Sepultaram-no e disseram: "Isto é o fim!" Os inimigos disseram-no com exultação; os amigos, com desalentado desespero. Haviam sonhado com um reino em que Jesus seria rei e eles, consequentemente, seus ajudantes e ministros. "Confiavam em que seria ele quem redimiria Ismael?" Lamentavam. Mas tudo estava acabado. E eles se esconderam nos cantos escuros da cidade até que a tempestade passasse.

 

Não temos o depoimento de testemunhas de vista do que aconteceu naquela hora mais negra da derrota e do desespero, e os relatos dos que estavam mais próximos da ocorrência são nervosos e incoerentes. Mas entre as horas do crepúsculo naquele sábado judeu e o amanhecer do dia seguinte aconteceu certamente alguma coisa. Não ouso descrevê-la e muito menos explicá-la.

 

Há anos eu também não teria ousado afirmar que olhara para o alto e vira um homem com uma máquina feita de metal voando por entre as nuvens do céu! Hoje sorriríamos com tolerância ouvindo afirmação tão comum. Apesar disso, há quem diga a propósito disso que se afirma ter acontecido em Jerusalém: "Absurdo! impossível!"

 

Como veem, não estou pensando em milagres no sentido da violação de leis conhecidas. Estou pensando em leis mais altas, em sutis e misteriosas forças de vida que os cientistas reconhecem, mas não puderam ainda medir nem controlar. Estou pensando principalmente naquele invencível poder do Amor pairando sobre aqueles homens trazidos de medo e aquelas mulheres desconsoladas, ansioso por confortá-los. E admiro-me... admiro-me.

 

Mas é certo que houve muita agitação naquela manhã de Páscoa. As pessoas corriam de um lado para outro, reuniam-se em grupos, dispersavam-se, sussurravam, riam, gritavam, choravam! Falavam febrilmente de visões de anjos. E essa agitação não pôde ser reprimida por sacerdotes nem por governantes. Foi aumentando de dia para dia.

 

E eis uma coisa maravilhosa. Aqueles intimidados e decepcionados discípulos tornaram-se subitamente heróis a quem nada podia atemorizar ou conter. Tinham tido medo de estar ao lado de Jesus enquanto ele vivia. Mas enfrentavam depois as multidões com a história improvável de que ele ainda estava vivo, de que ele voltara dos mortos. Alguma coisa acontecera àqueles homens. A coragem com que falavam e o efeito dela sobre as multidões que ouviam só podem ser explicados pela profundeza das suas convicções. Aqueles homens empenhavam a vida, o destino e a honra na verdade da delirante história que contavam. Eram presos e encarcerados. Eram decapitados, crucificados e queimados vivos. Mas nada podia abalar o testemunho que davam do que havia acontecido naquela manhã de Páscoa e durante os dias que se seguiram.

 

Dentro do espaço de 60 anos todo o Império Romano trepidava com o impacto da nova religião no mundo pagão - uma religião baseada na história de uma Ressurreição. Doze homens contra o mundo! Doze homens sem fortuna, sem instrução, sem apoio oficial. Entretanto, do testemunho que deram nasceu o que um intelectual moderno afirmou ser "a maior explosão de energia moral e espiritual que o mundo já presenciou".

 

Por isso, nesta manhã de Páscoa, renovando mais uma vez o meu credo, vejo que acredito numa Energia Criadora que enche o Universo e cuja presença é tão imanente no mais frágil inseto como na mais remota estrela. E que em algum ponto entre os dois me mantém no âmbito do seu poder.

 

Um credo simples, não é mesmo?

 

Mas é um credo que adoça a amargura da vida, infunde a emoção do amor e da coragem na rotina diária e dá asas à alma.

 

(Izabelle Horton  - Jornal "O Clarim" – Março de 1972) - www.oclarim.com.br/                                                                                            PRÓXIMO                                        INÍCIO