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COMO SÃO OS HOMENS

     A vida não é mais do que um sonho na tormentosa noite da eternidade.

     Ninguém pode admirar-se de que eu chame tormentosa a eternidade. É ela gasta no sofrimento, passada na dor.

     Sofrem os que são maus, porque são maus; sofrem os que são bons, por verem que os maus sofrem, sem lhes poderem valer.

     Enquanto o grau de perfeição atingido não permite que o nosso espírito se ale às regiões do supremo ideal, havemos de ser presa da dor como uma bugalha, de um gato. Brinca conosco, dá-nos sapatadas, arremessa-nos ao largo para nos reaver e voltar a arremessar. Não nos aniquila porque somos de massa resistente à força da dor, como a bugalha é resistente à força do gato.

     Parece que a perfeição se irmana com a tristeza como duas gotas de água limpa se irmanam uma à outra. Não há espírito aperfeiçoado que não seja um espírito triste. A alegria, o riso, são só apanágio dos frívolos, que encaram a vida pelo prisma do egoísmo ou da leviandade. Que se lhes dá que o seu vizinho sofra?

     Não sofram eles e basta.

     Os organismos avançados sofrem por si e pelos outros, e mais pelos outros do que por si. Veem um irmão seu com fome e não lhe podem valer?

     Sentem mais aquela fome, que o esfomeado. O esfomeado tem a impressão do estômago vazio a se contorcionar na necessidade fisiológica de alimentar-se; mas essas contrações diminuem à proporção que se lhe esgota a energia, e em breve a fraqueza condu-lo à atonia. O suco gástrico que segrega, enfraquece, atenua-se, modifica-se, e, sem esforço, o organismo, não encontrando energia no seu maquinismo funcional, consome-se lentamente, sem sofrimento, até à morte.

     Quem vir esse suplício dantesco, infernal, de uma criatura que se extingue, alimentando-se de si própria, como uma candeia que dá luz pela combustão derradeira da torcida seca, sofre todo o interminável suplício moral de se sentir impotente, inapto, para aliviar, na mais insignificante parcela, o sofrimento que supõe colossal, espantoso.

     E sofrerá mais, porque o outro cede breve à extinção pela combustão derradeira; e o que viu sofre enquanto a retina conserva a imagem do agonizante, e a memória a recordação do suplício!    

     Vês, amigo, porque os espíritos a quem Deus deixa atingir elevado grau de perfectibilidade, irmanam com a tristeza como se irmanam duas gotas d’água?

     A sua dor aumenta à proporção que diminui a distância e que se aproximam da Terra. Veem como o homem é cego e surdo; tão cego que ainda que se lhe acendesse outro sol moral, como o que irradiou há dois mil anos, dos confins da Judéia, ele não o veria; e tão surdo que ainda que se lhe tocassem as trombetas de Jericó ou se fizesse o chamamento do Vale de Josafá, ele não ouviria.

     A vaidade cega-o; o orgulho ensurdece-o. Caminha a rir para as trevas e para o martírio como uma criança para um abismo. A mesma inconsciência; a mesma jovialidade. Se à criança advertires que se não chegue à orla do mar que a tragará, ou à beira da rocha onde se poderá despenhar, essa advertência amiga fá-la-á sorrir e terá o mérito negativo de a impelir mais àquilo de que a queres desviar. O abismo atraí-la-á e ela cairá nele a rir.

     O homem dominado pela ignorância fará o mesmo.

     Daí e daqui almas generosas e altruístas dedicam-se por ele, gritam-lhe como aviso; apontam-lhe o precipício como caridade; mas o cego, o ignorante, ri-se, e avança impávido na sua fatuidade, provocador na sua sobranceria, desdenhoso na sua petulância, risível na sua grandeza, mau na sua intolerância e digno de lástima na sua cegueira.

     Avança, avança, como a criança impertinente; e só se apavora ao sentir o terreno tremer e fugir-lhe de sob os pés.

     É então tarde para emenda e cedo para o arrependimento. E aqueles que se consumiram na aflição do aviso improfícuo, continuam na mesma aflição pelo sofrimento que não podem remediar.

     O ser humano é presa eterna das mais rudes contradições. Quando mais ama é quando mais sofre, quando mais sofre é quando é mais feliz; quando é mais feliz é quando mais se prepara para se entregar à dor.

     E quer o homem compreender Deus!

     Pois se ainda não se chegou a compreender a si próprio; se ainda não conhece o seu mistério; se não sabe de onde veio; para onde vai; o que é; de que é feito; por que ama, para que sofre; para que se ri, porque chora; onde tem a consciência; qual o maquinismo da dor, da luz, da vista, do cérebro, do sonho; em que consiste a virtude; onde se localiza a maldade; como se opera o estranho mistério da fecundação, da germinação, da gestação, da nascitura; o que é a vida, como se evola a vida; que funções se adquirem para ela vir, que molas se partem para desaparecer; se não sabe nada disto, se não sabe de que tecido é feita a sua pele que resiste a todas as pressões e que um alfinete fura; que tem toda a elasticidade e que um inseto destrói; se ele não conhece nada, se não sabe nada de tudo que o compõe, de tudo que o cerca, de tudo que vê, que tateia, que sente, que sopesa, que analisa, que decompõe, que fragmenta, que escangalha, que destrói; como quer conhecer Deus, para lhe negar a existência e o poder? Mísero verme que mal conhece a terra de que se alimenta e quer julgar o sol que o aquece e deslumbra! Mísera toupeira que, porque passa a vida a perfurar a terra, quer negar a existência das aves que topetam as nuvens. E a toupeira será mais desculpável, porque não tem olhos para ver a luz, e a sua região é toda de treva subterrânea; enquanto que o homem tem olhos para ver, razão para raciocinar, inteligência para apreciar, coração para sentir, espírito para aperfeiçoar.

     Ele, que tudo sabe e que tudo faz, não sabe como se colora a flor nem como se faz o cardo.

     Não crê na própria alma, porque é maravilha; e não se espanta de não conhecer a colossal maravilha que constitui o bichinho que pisa, a florinha que calca, a água que bebe, o ar que respira, a saúde que desfruta e a morte que o transforma. Quem faz tudo?  A Natureza?

     Palavras, simplesmente palavras!

     Há um sentimento novo que o avassala? um fato que o espante? Busca uma palavra que mascare o fato, ou iluda o sentimento, e fica satisfeito. Nada explicou, não definiu nada, mas satisfez a sua ignorância.

     E se vemos isto só, ainda nos homens mais cultos, porque nos havemos de aproximar?

     Para sofrer?

     Nós também já fomos assim; e já fizemos sofrer os outros; e ainda temos faltas e defeitos que levam o sofrimento àqueles que Deus já libertou dessas faltas e desses defeitos.

     A vida é só sofrimento. Quem mais sofre mais intensamente vive.

     O que não sofre vegeta, ou quando mais, refocila na pocilga como um cevado. Para esses a vida não chega a ser vida: - é a cristalização da matéria até ao apodrecimento da morte.     

     A morte libertará o espírito que está acorrentado a um calhau; mas o espírito, pelo entorpecimento da prisão, fica um pedaço de estupidez, ou um fragmento grosseiro do diamante bruto, esperando que o operário do sofrimento o venha facetar e polir.

     Felizes daqueles para quem a vida é um sonho, na torturante noite da eternidade; e benditos os que caminharem por essa noite fora com os olhos fitos na estrela radiante, suprema, única, universal, que se chama Deus. (Espírito Victor Hugo - Médium: Fernando Lacerda - Obra: Do País da Luz - volume 1).

EM TUDO A SIMPLICIDADE: - NO PENSAR, NO COMER, NO VESTIR, NO AMOR E NO PROCEDER. NA SIMPLICIDADE ESTÁ A PUREZA.

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