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BONS CONSELHOS

    

José Maria Eça de Queirós

     São horas de te ires da vida.

     Não quero, entretanto, deixar de te falar, visto que assim é necessário.

     Não serei eu que furte a minha voz ao concerto geral que pretende insuflar-te fé, como se te fizesse a operação da transfusão do sangue.

     És um fraco. Sentes-te dominado por uma ideia fixa de desfalecimento e de receio que nada justifica.

     As tuas coisas materiais, se não correm bem, também não correm mal; e não constituem motivo forte para as sinistras apreensões a que entregas o teu espírito, sempre que nelas pensas.

     Creio que essa incerteza, essa fraqueza de que te possuis, são reflexos da tua vida anterior.

     O teu espírito, prestes a deixar definitivamente a Terra, já se não sente armado para as grandes combatividades dela. És um lutador que findou a sua missão.

     Sentes-te forte na nova fase de teu ser: - a combatividade espiritual.

     Aí não desfaleces; e a pujança da tua vontade e do teu espírito revela-se dominadora.

     Não te aflijas, porém, da tua inapetência para as coisas puramente materiais. Outros olharão por elas; e, se na saída daí não deixares cabedais acumulados para servirem o ócio e o vício de quem os não soube ganhar, não te magoe isso, porque Deus faz tudo pelo melhor.

     É que, se tiveres adquirido muito, muito terás semeado; e é muito mais produtivo para o lavrador que a semente seja convenientemente espalhada na terra, do que fique em monte, onde poderá formar tufos de verdura, mas onde nada produzirá.

     Amas muito os teus pequeninos, não é assim?

     Ama-os, que bem to merecem; mas se lhes queres deixar uma riqueza inigualável, que nenhuma outra suplantará, educa-os no amor a Deus, no culto ao bem e no hábito do trabalho.

     Se ficarem pobres de bens terrenos, ficarão riquíssimos de virtude.    

     O amor a Deus dar-lhes-á o esplendor da perfeição; o culto do bem dar-lhes-á a felicidade máxima, que se poderá gozar na Terra; e o hábito do trabalho dar-lhes-á o pão nosso de cada dia, que mais não é preciso, para quem busque a supremacia do espírito.

     Aqueles três princípios devem constituir, desenvolvidos por ti nos pequeninos cérebros das tuas gentis crianças, a base de toda a riqueza que lhes deves apetecer.

     A  outra, a do dinheiro, raro deixa de transformar o seu possuidor em criatura ociosa, avara, mesquinha, perdulária ou egoísta. Raramente deixa de desequilibrar o cérebro e o coração humano a ponto de o fazer consumir, indiferentemente, numa futilidade desprezível, o que constituiria a felicidade de muitos desgraçados.

     O amor a Deus, o culto do bem e o hábito do trabalho faz a pessoa honesta e santa, compassiva e resignada, boa e humilde; enquanto a riqueza argentária deixa muitas vezes, quase sempre, fundos rastos sangrentos de perversão e maldade nos seus favorecidos.

     É necessário que o favorecido da fortuna dinheirosa seja fundamentalmente honesto e santo, para resistir proficuamente às tentações demoníacas do brilho do ouro, e de todas as depravações que ele liberrimamente faculta; enquanto que, aos que professam aqueles três sentimentos, é necessário que sejam fundamente maus para se afastarem do caminho do dever para com Deus e para com os homens; e para que se deixem tentar pelo canto da Sereia da maldade e da inveja.

     Ensina-os a serem crentes, humildes, honestos, bons e trabalhadores, pacíficos e resignados, e, ao deixá-los nesse mundo, órfãos do teu amor, poderás trazer a tua consciência tranquila, na certeza de lhes teres legado riqueza maior do que se lhes deixares todas as minas de diamantes do Transvaal.

     Tu nasceste pobre, e ainda te não faltou o pão, e bem sabes que possuis riqueza que nenhuma outra iguala na vida terrena.    

     Lembra-te que a causa próxima ou remota de todo sofrimento na Terra é o dinheiro.

     Desune a amizade mais estreita; aniquila o amor mais entranhado; perverte a alma mais bem formada; destrói a reputação mais honesta; derruba o crédito mais firme; desonra a mulher mais pura; enegrece a neve mais alva; mancha a consciência mais branca; tortura o espírito mais generoso; envenena as intenções mais santas, e faz renegar as crenças mais convictas. Pelo dinheiro se despreza pai e mãe; pelo dinheiro se renega Deus. Pelo dinheiro se matam irmãos, pelo dinheiro se perde a mulher e as filhas.

     Quem é mais rico, é quem está armado com todo o dinheiro, ou quem despreza o dinheiro todo?

     Quem ama o dinheiro é escravo dele; quem o despreza é seu senhor. O dinheiro raro evita um remorso, e quase sempre é manancial inesgotável deles.

     Não apeteças dinheiro aos filhos diletos da tua alma; apetece-lhes bondade e simplicidade.

     Ensina-os na conquista desta riqueza; mostra-lhes a mina onde trabalhas, e deixá-los-ás ricos.

     A tua razão reconhece a justeza absoluta do que te deixo dito; o teu coração, porém, ainda hesita.

     É que a tua razão é o quantum da experiência do teu espírito, e o teu coração é um músculo carnoso, oriundo da terra e que à terra volverá com as suas virtudes e os seus defeitos. Educa-o também, corrige-o. Afina-o pela tua razão e conseguirás ser quase perfeito.

     Cultiva o que ele tem de bom, expurga-o do que ele tem de mau.

     Ele pode não te perder já, mas pode perder aqueles que amas e que são para ti mais do que a tua própria vida, porque são a vida da tua alma.

     Educa-te e educa-os. Serás justo e eles serão ricos, da riqueza que perdurará, e que eles levarão consigo, a despeito da morte, que os acompanhará em manifestações luminosíssimas do mais santo esplendor através dos mundos e através das eras. Será com essa riqueza que eles se encontrarão ao passar a aduana de que te falei; e podem sair daí rotinhos, descalços, famintos, que serão aqui recebidos pelos piou-piou da guarda fiscal celeste com mais respeito, com mais acatamento e amor, do que os príncipes e os grandes aí pelos galuchos da sua congênere terrena.

     Querê-los grandes? Ensina-os a serem pequeninos.

     Se os ensinares a quererem-se grandes, ve-los-ás, aflito, reduzidos a pigmeus, insignificantes pedaços de maldade que rolarão nas trevas, batidos pelo sofrimento, como pequenos seixos rolarão na praia batidos pelas ondas. (Espírito Eça de Queirós - Obra: Do País da Luz - volume 1 - Médium: Fernando de Lacerda)

 

OS  ESPÍRITOS,  ENSINANDO  A  DOUTRINA  DA  PLURALIDADE  DAS  EXISTÊNCIAS  CORPORAIS,  RENOVAM  POIS,  UMA  DOUTRINA  QUE  NASCEU  NAS  PRIMEIRAS  IDADES  DO  MUNDO

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