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Eça de Queirós

O BEM E O MAL                                 

 

      Eu podia, sem grande esforço, cantar ditirambos ao mal.

     Não merece a pena, visto que o mal não existe. É uma nuance do bem; nuance necessária, corolário indispensável.

     Ambos se completam e fundem na mesma obra perfeita e indivisível da Natureza.

     Nunca podemos saber quando um bem é um mal, ou quando um mal é um bem.

     À nossa compreensão egoísta afigura-se que só é bem o que nos agrada e consola; e tudo que contribui para que a vida nos decorra placidamente constitui esse bem; como supomos mal tudo que tenda a fatigar-nos e a dolorir-nos a existência.

     Entretanto todos os grandes espíritos, luminosos guias no Universo, proclamam que o maior bem é a dor!

     Ora, quem há que goze esse bem, que o não maldiga?

     Se a dor no mundo é um bem, o bem-estar deve ser um mal.

     Deve ser!

     Apesar, porém, de dever ser assim, creio que quase toda a gente só chamará bem a tudo que lhe prodigalize conforto moral ou espiritual.

     É na tépida calma desse conforto que se faz otimamente o quilo, sem preocupação nem contrariedade. Só nessa branda atmosfera de egoísmo, os discípulos amados de Epicuro reconhecerão que o bem na Terra não é uma palavra vã.

     Admirar-se-ão de que haja sofrimento, como uma cocotte, atufada em peles caras e em peliças raríssimas, se admirará que a irmã honesta regele com frio, tiritando, esfarrapada, por sobre a neve dos caminhos, em noite de janeiro.

     Pois por aqui, por onde agora ando, ouço dizer aos mestres de alvas vestes, que o verdadeiro bem está mais próximo das carnes empedernidas pelo frio, do que das flácidas e rosadas carnaduras, amolentadas pelo calor artificial dos abafos desonestos.

     Os que vivem na placidez do conforto só vivem para si: só adoram a sua individualidade, para que apetecem requintes sensuais de gozo, voluptuosas sensações de bem-estar. Esquecem tudo; olvidam todos; e não pensam senão no que de ótimo se possa inventar, para substituir o seu bom.

     Os outros, míseros viventes vergastados pela adversidade, pensam, invariavelmente, mais nos seus companheiros infortunados do que em si próprios.

     É para esses que se inventou o espiritual liame da solidariedade.

     É na miséria e na dor que se dá bem a rubra flor solidária e a roxa orquídea da abnegação.

     Quem milagrosamente sair do báratro do sofrimento, renegará logo toda a confraternidade com os imbecis, que continuem gemendo sob o fardo pesadíssimo da amargura, na sua peregrinação pela viela tortuosa e íngreme da vida.

     Nada quererá com eles e procurará, afadigosamente, afastar tudo que lhes possa lembrar os momentos angustiosos, em que se sentia preso à cadeia da solidariedade na miséria, como um forçado à calceta galeriana.

     E onde está o bem? Onde está a felicidade?

     No bem-estar - dirão todos: - os que gozam, revoluteando-se, voluptuosamente, nele, como a mão descarnada de um avarento se revoluteia no ouro amontoado nas suas burras; e os que o apetecem, como crianças famintas à porta de um restaurante caro apetecem manjares a que não podem chegar.

     Que será o bem-estar?

     O bem-estar é o sossego na vida, dirão.

     É o descanso. O descanso, porém, é a paragem; é o estacionamento.

     Pela natural tendência que toda gente tem à inércia, pode apetecer-se o descanso, como sonhado terminus de todas as aspirações materiais e espirituais; mas o descanso em um meio natural em que tudo é ação, evolução e revolução, constitui o pior dos retrocessos.

     Na Natureza, desde o átomo e da molécula às estrelas, tudo gira, tudo embate, em luta violenta, ciclópica, incessante.

     Tudo se agrega e desagrega miríades de vezes; tudo se choca, tudo se funde, tudo se atrai, tudo se repele, tudo avança, tudo se modifica, tudo se destrói, tudo se reconstrui, numa grande ânsia insaciável e insuperável de aperfeiçoamento e de progresso.

     Deus, quando fez o Universo, deve ter dito a tudo: - Caminha; e tudo ab initio e ab aeterno, procura caminhar no frêmito entusiasta de chegar primeiro.

     O homem faz, por vezes, movimentos de recuo. Faz, não: supõe fazer.

     Quer, pela quietude e pelo egoísmo, parar no meio do movimento acelerado do Universo.

     O homem na sua acepção coletiva e genérica, ou o homem na sua acepção individual e isolada.

     Então, o Criador flagela-o nos flancos com o açoite da dor, e o animal avança, aos saltos, doido, nervoso, blasfemo, aterrador.

     O açoite é a guerra, as revoluções, os cataclismas, as pestes e outros flagelos, que vêm, como outras tantas advertências, demonstrar a inanidade, a impotência e a absoluta carência de valor e de poder do mísero bicho humano.

     Isto quanto às coletividades; porque, quanto às individualidades - Ele desperta-as menos ruidosamente, mas são menos dolorosamente. E ai daqueles a quem a molície da comodidade e da fortuna acalentou permanentemente nessa vida!

     Ai dos que não conhecem a lágrima própria, nem enxugaram a alheia; dos que não viram o manto negro da dor sobre o seu corpo mimoso, nem o afastaram do pustuloso corpo estranho; dos que não sentiram roçar pelas carnes cetinosas a asa agourenta do sofrimento, nem a enxotaram das carnes verminadas do seu semelhante miserável! Ai deles, porque esses pararam na via eterna da Perfeição! Pararam, como criaturas moles, como estafermos cansados ou preguiçosos, enclausurados no culto feiticista da sua própria individualidades, como um rato sórdido num queijo mal guardado em despensa desleixada.

     A esses  hão de vir buscá-los e acicatá-los, como a burros manhosos das récuas cintroas; e então conhecerão quanto custa o galope necessário para retomarem os seus lugares na caravana; e saberão assim quanto de mau existiu no bem-estar em que se refocilaram e quanto de bem existirá na mal-estar que lhes proporcionará o avanço indispensável à conquista dos seus postos no turbilhão universal.

     Pode não ser aí, mas será aqui; e se não for aqui será aí, ou além, por esse além fora, na vastidão infinita do espaço, dos mundos, da treva ou da luz eterna.

     Quem sabe quantos dos avergados hoje à dor, presos à grilheta ignominiosa do desaire, da vergonha e do desprezo, foram dos retardatários, dos egoístas, dos malévolos de outrora! Quantos a fatalidade inexorável da justiça eterna suplicia hoje das cruezas ou das manifestações de ferocidade e de egoísmo de ontem?

     E assim, onde estará o bem: - no bem que supuseram desfrutar, que lhes trouxe, como consequência necessária de correção, o mal de que sofrem agora, ou nesse mal que lhes dará incontestada primazia na colossal galeria das personalidades boas, se tiverem a firmeza de caráter, a rijeza de ânimo, a inquebrantabilidade de paciência necessárias, para resistirem de pé, serenos e conformados, à tempestade purificadora?

     Tudo na vida é assim. Só as grandes tempestades purificam e limpam bem a atmosfera; só as grandes reações químicas decompõem os corpos; só as grandes calorias depuram os metais; só as grandes dores formam os caracteres e evidenciam as almas nobres e puras.

     O diamante, se tivesse vida e pudesse, fugiria ao sacrifício da lapidação. Nisso estaria o seu bem, pelo seu sossego.

     Entretanto continuaria a ser pouco mais do que um seixo vulgar de ribeira areenta; enquanto que, depois da lapidação dolorosa, passa a ser um pedaço de luz materializada, como que um fragmento de estrela, de preço inestimável.

     Qual era o bem? Qual era o mal?

     Ora, aqui fica uma incógnita de que eu gostava de conhecer a definição, dada pelos sábios da Terra, onde também tive pretensões de saber alguma coisa!...

(Espírito Eça de Queirós - Obra: Do País da Luz - tomo 2 - Médium Fernando de Lacerda).

 

NAS  TRILHAS  EVOLUTIVAS,  SOMENTE  O  BEM  NÃO  É  PROVISÓRIO

                                                                                                                                           

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