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AME A SUA PROFISSÃO

    

     Ora, eu entendo que quem tem a preocupação de ensinar alguma coisa, tem de ensinar com brandura, suavemente; abandonando os repelões e a férula dos antigos mestres-escolas, que não serviam para convencer nem para edificar.

     Constituía meio de intimidação, pretexto para fazer descontentes e detratores.

     Vou, pois, tentar empregar só a linguagem da razão fria e tranquila, como a de um professor de física.

     Nem a tolerância dos passa-culpas, nem a fera catadura1 dos catedráticos universitários.

     Que pretendo eu?

     Ensinar? Modificar? Construir?

     Se assim é, preciso ter paciência e persistência; e qualquer destas duas raras virtudes não se casam com a irascibilidade2.

     Quando a irascibilidade assenta arraiais em nosso cérebro e em nossa vida, estupidifica-nos, bestializa-nos. É como se sobre a nossa inteligência se lançasse um negro véu de ódio, que nos fizesse ver tudo escuro e mau.

     Um homem irascibilizado não difere muito de qualquer fera de presa aguçada e garra recurva. E se difere, é para pior.

     Não sei bem se o meu mau humor deixou vestígios das qualidades ruins, que lhe são iracundo fermento.

     Se deixou, que mos perdoem, que eu... assim mesmo os deixo ficar.

     Prossigamos, pois, no assunto, que mais pode interessar.

     Ser homem, na Terra, não é ser simplesmente um animal bípede.

     A razão, a inteligência e a vontade constituem-lhe um apanágio, que mais nenhum outro animal possui, ou, pelo menos, que só muito rudimentarmente possui.    

     Essas qualidades dão-lhe uma preponderância absoluta sobre todos os outros seres; mas impõe-lhe responsabilidades indeclináveis e deveres inalienáveis.

     Responsabilidades e deveres perante Deus, perante os seus semelhantes e perante sua própria dignidade.

     A sua função humana não se limita só ao alimentar-se para viver, e ao procriar para se não extinguir a espécie. Isso faz o sapo, isso faz o asno.

     Até no alimentar-se, a inteligência, que lhe ilumina a vida, lhe ensina uma infinidade de modos para condimentar o pão de cada dia.

     Essa inteligência extrema-o e seleciona-o entre todos os seres. Existe nele alguma coisa de superior, de progressivo, de elevado, que o deve dignificar perante os seus próprios olhos, e que deve aproveitar em benefício próprio e alheio, sem que por essa superioridade se deva envaidecer.

     A inteligência é uma faculdade natural, independente da sua vontade e da sua diligência.

     Possui-a como os pirilampos possuem a faculdade de iluminar de noite, e as algas marinhas a de fosforescerem nas ondas.

     Só terá mérito se a souber educar, se fizer dela uso mais digno do que aquele que o porco faz da própria estupidez.

     Ora, em saber fazer esse uso, é que está toda a dificuldade.

     Há homens que no uso que fazem da inteligência, envergonhariam os cães, se estes tivessem a desgraça de os contarem na sua raça.

     Empregam-na só em desproveito seu e dos outros. Aguçam-na para fazer mal, como um fadista afia uma navalha para cortar melhor.

     Ora, não é isso que deve fazer.    

     Deve cultivá-la, educá-la, enobrecê-la. Fazer dela a luz divina que lhe ilumine a alma, e sobredoure tudo em que a sua vontade trabalhe; fazendo que as coisas, em que incida essa luz, tomem o verdadeiro, o natural aspecto que a Natureza, na sua simplicidade santíssima, lhes prestou.

     Na busca, na análise de tudo que for encontrando pela vida fora, deve procurar ver claro; deve em tudo procurar a justa medida de um juízo equilibrado e são. Se assim o não fizer, mal lhe virá.

     Não deve empecer o caminho aos outros, nem dar abrigo à inveja nem à maldade.

     Há no mundo ensejo para que todos possam evidenciar as suas faculdades e as suas qualidades. Todas as profissões enobrecem, quando exercidas com dignidade; e a dignidade pode irradiar tanto de um modesto varredor das ruas, como dos nobres velha rocha, com avoengos3 na Távola Redonda.

     A que cada um deve fazer, é cultivar a sua natural aptidão.

     A quem tiver amor pela música, manda o bom juízo que se não faça sapateiro, para evitar aos graciosos o prazer malicioso de perguntar-lhe quem lhe ensinou a tocar rabecão.

     O grande mal, porém, é que todos procuram iludir-se. Colocam-se fora do âmbito em que conseguiriam distinguir-se, para irem anular-se, constituindo desajeitado e ridículo trambolho num âmbito estranho, impróprio.

     Não suba nunca o sapateiro acima da sua chinela.

     Todos nós aí conhecemos um ótimo operário, ou um ótimo artista, que foram dar em detestáveis burocratas; e um ótimo burro, que concluiu por bacharelar-se em qualquer coisa, para que Deus o não fadou.

     Não teria sido melhor terem ficado no lugar, que a habilidade ou a tendência natural lhes havia marcado?

     Era; mas obedecer à natureza era um fenômeno vulgar, que brigava com a querida ambição humana, de destacar-se pela contradição.    

     Ele entende que a maneira de se notabilizar é arrepiar em tudo; é fazer o contrário do que seria simples e lógico que fizesse.

     É por isso que quase toda gente detesta, honradamente, a sua profissão, e ama, e ambiciona a dos outros; desdenha do que sabe, daquilo em que podia, realmente, falar com vislumbres de consciência, e com alguns direitos de propriedade, para meter-se a falar em tudo o que não compreende, a sentenciar em coisas de que nem faz ideia.

     Se se trata de filosofia, toda a gente é filósofo; se se fala de maleitas, todos receitam especialidades de maravilhosa eficácia; se se fala de arte, sente cada um brotar de si um erudito e autorizado crítico.

     Do que ninguém falar é do que sabe; mas, se ouve os outros irem meter foice na sua seara, sorri-se, com supino desdém, das necedades4 que eles despejam, caudalosamente, com entonos5 de magister.6

     Nesse desdém picante, esquece que, enquanto os outros dizem asneiras naquilo de que ele sabe falar, se conserva calado; para em seguida repetir, por sua conta, a mesma farsa ridícula, começando a falar em assuntos de que só os outros percebem, levando-lhes, a eles, o sal que os fará sorrir com igual compensador desdém.

     Não era melhor cada um amar a profissão em que vive, fazer dela o seu casulo, a sua capela; procurando aconchegar-se no seu agasalho, produzir pelo seu saber, e tornar-se verdadeiramente útil e respeitável pela identificação magistral com o seu mister?

     Assim viveria sem escárnio e sem atritos. Conseguiria ajustar-se ao seu meio, como um êmbolo à bomba de uma máquina.

     Nas grandes fábricas, onde existe estabelecido o princípio da divisão do trabalho, cada artífice labora só numa determinada especialidade. Sempre a mesma. Não aprende mais, nem tem que pensar em mais; mas, na confecção dessa de que trata, atinge uma perfeição e uma agilidade extraordinárias.    

     Cada operário destes é um mestre. Consegue aliar o máximo possível da correção ao máximo possível da produção.

     Nas fábricas onde esse princípio não vigora, cada artífice sabe de tudo, não tem especialidades; mas também não é especialista em coisa alguma, e tudo quanto sabe é incompleto, imperfeito.

     E sucede assim em todas as coisas subordinadas à atividade humana, quer seja na ordem física, quer na ordem espiritual. (Espírito Eça de Queirós - Obra: Do País da Luz - Médium: Fernando de Lacerda). 

Notas do compilador: 1 - catadura; semblante; aspecto - 2 - irascibilidade: qualidade de quem se irrita com facilidade - 3 - avoengos: antepassados - 4 - necedades: tolices; disparates - 5 - entono: orgulho; arrogância - 6 - magister: mestre. 

 

O  SER  HUMANO  É  CRIADO  COM  A  IMORTALIDADE  -  HERANÇA  DIVINA  DO  ELABORADOR  DE  TODOS  OS  PORTENTOS  DO  COSMOS...

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