ÁGUAS DO AQUERONTE

Lisboa - Foto iap

                                  

   Eça de Queirós

    

     Quando atravessamos as águas do Aqueronte,* ao encontrarmo-nos do outro lado, somos irresistivelmente levados a balancear toda a nossa obra feita na Terra.

     Não pude furtar-me à lei geral. Ao balanceá-la vi que estava pobre. Encontrei: - Riso 40 por cento; ironia 50; amargura 5; dor 4; de todos os outros sentimentos 1. Era um escritor falido.

     O riso e a ironia são artigos a que por aqui se dá muito pouco apreço.

     Pretendi convencer a minha consciência, espécie de guarda-livros feroz, de que as provisões com que me tinham preparado para esta viagem não eram de todo más; que, se não eram a genuína canela de Ceilão, nem o chá da China, nem a seda de Cambraia, nem o cravinho e a pimenta da Índia, eram também coisa necessária à humanidade, e que talvez Deus me perdoasse o não ter curado do arranjo de coisa melhor, pela fé em que eu estava de que na Terra, no seu apodrecido estado atual, o riso e a ironia mordaz, ainda que partissem de um indivíduo naturalmente triste, como eu, deviam ser coisa útil e boa. Corrigiam e amenizavam; e quem cansa o cérebro a procurar aríetes para arrasar e destruir os ridículos humanos, deve ser quase tão benemérito como aquele que vibra à humanidade punhaladas de dor na alma couraçada pelo egoísmo e pela indiferença. Nada a movia. Fechou o balanço com tão grande saldo negativo que fui considerado absolutamente falido.

     Apelei para o bom Deus. Ele, o julgador sereno e universal, absolveu-me.

     Foi porque viu que eu, se cedia para os outros, como mercancia utilitária, o riso e a ironia, tinha para meu uso larga reserva de dor e de amargura; e que, talvez, só ainda por amorável abnegação eu parcamente fazia extravasar o fel, espremido em doses homeopáticas, nas rajadas de troça com que chicoteava o meu preclaro semelhante ridículo.

     Liberto da pena, por aqui ando, triste e hipocondríaco, chorando nênias à riqueza que desperdicei na Terra e à que não soube adquirir para aqui.    

     É possível que, perdulário impenitente, eu pense ainda em, pelo condutor que tu me ofereces, arremessar aos empertigados ridículos dos conspícuos cidadãos da Terra, alguns petardos de cauterizante pólvora; mas será isso em oportunidade própria e não no primeiro momento em que te lembres de me chamares à pedra, ou de abrires o receptáculo da peça, com que hei de disparar. Crê. Não pouparei o meu belo burguês, que se baba extático ante a estátua afrodisíaca da Verdade, sem dar um segundo do seu pensamento àquele que mourejou toda a sua vida a fazer jus a que lhe fornecessem à faiblesse genital o belo tipo nu da nossa gentil minhota!

     Ele, nessa admiração macheal, paga o seu tributo à cretinice da volúpia; e eu, na minha chicotada benéfica, pagarei a sua dívida à Justiça e ao bom senso.

     Porém, talvez, dizer que não causa admiração quem não soube admirar nada. Isso não os desculpa. Eu também admirei, também amei, também sofri; mas tive sempre muito parca consideração para com o parvenu universal, para que fizesse dele o meu confidente. Para quê? Espremer o meu coração ante o público para que ele se risse ou enauseasse? Não. Era preferível espremer o coração dele, e fazê-lo rir de si próprio nos esgares epilépticos de um endemoninhado.

     Analisava-o, escalpelava-o como um anatomista faria a um cadáver, e mostrava a esse colossal corpo vivo, em lição de anatomia moral, as partes gangrenosas do seu coração; as cavidades vazias do seu cérebro; a purulência infectante dos resíduos cerebrais que ainda tivesse, e desfibrava, uma a uma, todas as fibras de que se compõe o seu mimoso corpo.

     E então esse lindo sátiro da Verdade via que os nervos e os tendões que a fazem curvar na zumbaia admirativa e veneradora, se chamam muitas vezes hipocrisia e servilismo; que os que o retesa no seu aperuado aplomb, se chamam orgulho, vaidade, ignorância, estultícia e pretensão; que aqueles que lhe provocam a agilidade e a dedicação, se chamam interesse, egoísmo e ambição; os que lhe dão a impressão sensória do amor, são a sensualidade, o vício, a perversão; os que lhe primem a alma na dor e na angústia, são, muitas vezes, a inveja, a insaciabilidade, a avareza e a maldade.

     E ele, o homem grande, ao surpreender-se virado do avesso e refletindo-se no seu íntimo como num espelho de cristal, tomava o único expediente fácil e possível: - o se se rir cinicamente, como um tarado inconsciente ao ser apanhado em flagrante de delinquência.

     A mulher, a cândida mulher, a vestal, a deusa, que o homem inventou para burra de carga e instrumento da sua lascívia, esta tem talvez menos defeitos apreciáveis.

     O seu cerebrozinho vibrátil e emocionante, quando revoluteia dentro da pura atmosfera feminil, não segrega venenos perigosos senão para as rivais; e o seu coração, se destila, por vezes, inveja e rancor, perfídia e intriga, merece o perdão, porque a maior parte delas queimam aquele carnoso músculo no altar da paixão, da fé e da abnegação. E depois a mulher foi a nossa mãe, foi a nossa esposa, foi a nossa filha; e foi a única coisa boa que eu deixei na Terra, foi o ter sabido amar minha mãe e minha mulher. Amei-as a meu modo; mas amei-as sinceramente; e é a sua recordação a única fibra que me move à parca sensibilidade a que sou acessível.

     Às mulheres, senão amor, ao menos respeito. É corda que não quero tanger. Mas são as mulheres; porque as mulheres machas, as campeãs do feminismo, as rivais dos homens, detesto-as. Têm todos os defeitos do homem, notavelmente exagerados, sem nenhuma das virtudes da mulher.

     São o híbrido de duas coisas más: - o homem mau e a mulher má; por isso um refinamento em qualidades péssimas.

     Perdoa a causticidade; Isto hoje não é ironia; é soda cáustica, é vitríolo. Queima, chaguenta.

     É que me recordo, com desespero, que por ter querido eliminar pelo riso, ou quando menos modificar pela troça, os ridículos e as maldades do meu semelhante, me esqueci de que era como ele ridículo e pretensioso; estéril e seco de carinhos e afetos, como um Saara humano, e por isso fali desastradamente na minha obra espiritual. Não confundir com a minha obra de espírito; que essa ainda deu algum dinheiro aos editores, algum riso aos parcos, alguns pensamentos aos filósofos, algum desprezo aos tristes, uma meia estátua a mim; e aos velhos, aos lascivos, aos sátiros, uma bela e escultural mulher... de pedra, para a admiração da vista e obnóxias recordações culturais.

     Realmente... realmente...

     Ó Deus de bondade e de amor: - perdoa-me! O mundo não se pode tomar senão a rir!

     Quem o tomar a sério será louco, desgraçado ou... santo.

     Deixa-me rir, Senhor, deixa-me rir!!!...

(Espírito de Eça de Queirós - 25/11/1906 - Obra: Do País da Luz - Médium: Fernando de Lacerda)                  

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A VAIDADE E O ORGULHO SÃO AS BARREIRAS PARA OS SÁBIOS QUE SE ESQUECERAM DE DEUS