Fustel de Coulanges

Cristo por Rembrandt   

                 

  

                   A SOCIEDADE ANTIGA E O CRISTIANISMO

       

A vitória do cristianismo assinala o fim da sociedade antiga. Com a nova religião se remata a transformação social que vimos começar seis ou sete séculos antes do seu advento.

     Para sabermos como os princípios e as regras essenciais da política foram então modificados, basta lembrarmo-nos de que a antiga sociedade fora constituída por uma velha religião, cujo principal dogma era que cada deus protegia exclusivamente uma família ou uma cidade, só existindo para a mesma família ou cidade. Foi o tempo dos deuses domésticos e das divindades políadas. Esta religião gerara o direito: as relações entre os homens, a propriedade, o patrimônio, o processo, tudo fora regulado, não por princípios de equidade natural, mas pelos dogmas dessa religião, só atendendo às necessidades do seu culto. Fora ainda esta religião que estabelecera um governo entre os homens: o do pai na família, o do rei ou magistrado na cidade. Tudo procedia da religião, isto é, da opinião que o homem formara da divindade. Religião, direito, governo, confundiam-se e mais não eram que a mesma coisa vista sob três aspectos diversos.

     Chegou o dia em que o sentimento religioso recobrou vida e adquiriu vigor, e então, dentro do cristianismo, a crença apoderou-se novamente do homem no comando da sua alma. Não ia então ver-se aqui a renovar-se a antiga confusão entre governo e sacerdócio, entre fé e lei?

     Com o cristianismo, não só o sentimento religioso se reavivou, mas tomou ainda expressão mais elevada e menos material. Enquanto outrora se haviam fabricado deuses da alma humana ou das grandes forças físicas, começou-se agora a conceber Deus como sendo, por sua essência, verdadeiramente estranho à natureza humana, por um lado, e ao mundo, por outro lado. O divino foi devidamente colocado fora e acima da natureza visível. Enquanto noutros tempos cada homem fizera o seu deus, havendo tantos deuses quantas as famílias e as cidades, Deus apresenta-Se agora como um Ser único, infinito, universal, único a dar vida aos mundos, o único a dever preencher a necessidade de adoração inata em todo o homem. A religião deixou de ser exterior; residiu sobretudo no pensamento do homem. A religião deixou de ser matéria; tornou-se espírito. O cristianismo transformou no homem a natureza e a forma de adoração; o homem não voltou mais a dar a Deus o alimento e a bebida; a oração deixou para sempre de ser fórmula de magia, mas ficou sendo para o futuro ato de fé e de humilde súplica. A alma passou a estar em outra relação para com a divindade: o temor aos deuses foi substituído pelo amor para com Deus.

     O cristianismo trouxe ainda outras inovações. Deixou de ser a religião doméstica de determinada família, a religião nacional de qualquer cidade ou de qualquer raça. O cristianismo não pertencia nem a uma casta, nem a uma corporação. Desde o seu início, chamou a si toda a humanidade. Jesus Cristo ensina aos seus discípulos: “Ide e instruí todos os povos”.

     Este princípio era tão extraordinário e tão inesperado que os primeiros discípulos tiveram o seu momento de hesitação; pode ver-se nos Atos dos Apóstolos que muitos se recusaram de princípio a propagar a nova doutrina fora do povo entre o qual a boa nova lhes fora revelada. Estes discípulos pensavam, como os antigos judeus, que o Deus dos judeus não queria ser adorado por estrangeiros; como os romanos e os gregos dos tempos antigos, acreditavam que cada raça tinha o seu deus, que propagar o nome e o culto do deus era renunciar a um bem próprio e a um protetor especial. Mas Pedro replicou a esses discípulos: “Deus não estabelece diferenças entre o gentio e nós”. São Paulo gostou de repetir este grande princípio em todas as ocasiões e sob toda a espécie de formas: “Deus - prega S. Paulo - abre ao gentio as portas da fé. Acaso Deus será só Deus dos judeus? Não; com toda a certeza Ele também é o Deus dos gentios... Os gentios são chamados à mesma herança que os judeus”.

     Havia em tudo isto algo de muito inovador.

     Isto trouxe-nos grandes consequências, tanto para as relações entre os povos como para o governo dos Estados.

     A religião nunca mais prescreveu o ódio entre os povos, nem preceituou ao cidadão como dever detestar o estrangeiro, mas, pelo contrário, passou a ter por essência ensinar ao homem que tem deveres de justiça e até de benevolência para com o estrangeiro e até para com o inimigo. E assim “Jesus Cristo - fala o apóstolo - destruiu a muralha da separação e da inimizade”.Há muitos membros, diz ele ainda, mas todos não formam mais do que um único corpo. Não há gentio, nem judeu; nem circuncisos, nem incircuncisos, nem bárbaro, nem cita. Todo o gênero humano está disposto em uma só unidade”. Ensinou-se mesmo aos povos que os homens descendem todos de um mesmo pai comum. Com a unidade de Deus, surge nos espíritos a unidade da raça humana, e desde então torna-se necessidade da religião proibir ao homem odiar os outros homens.

     Jesus Cristo ensina que o seu reino não é deste mundo. Separa a religião do governo. A religião, já não sendo terrena, deixa de imiscuir-se nas coisas da terra senão no mínimo. Jesus Cristo acrescenta: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Foi a primeira vez que tão nitidamente se distinguiu Deus do Estado. Porque César, na época, era ainda o sumo pontífice, o chefe e o principal órgão da religião romana, o guarda e o intérprete das crenças, quem reunia em suas mãos o culto e o dogma. Mas sucede que Jesus Cristo quebra essa aliança que o paganismo e o império procuravam reatar, e proclama que a religião já não é o Estado, e obedecer a César já não é o mesmo que obedecer a Deus.

     A política e a guerra já não representavam tudo para o homem; no patriotismo já não estão compreendidas todas as virtudes, porque a alma já não tem pátria. O homem sente ter outras obrigações, além das de viver e morrer pela cidade. O cristianismo distingue as virtudes privadas das virtudes públicas. Humilhando estas, exalta aquelas; coloca Deus, a família, a pessoa humana, acima da pátria, e o próximo, acima do concidadão. O direito mudou também de natureza. Em todas as nações antigas o direito submetera-se à religião e dela recebera todas as suas normas. Entre os persas e hindus, entre os judeus, entre os gregos, os itálicos e os gauleses, ali havia estado in totem nos livros sagrados ou na tradição religiosa. Por isso cada religião criara o direito a seu modo. O cristianismo é a primeira religião que não pretende regular o direito. Ocupou-se dos deveres dos homens, não das suas relações de interesses. Não o encontramos a regular nem o direito de propriedade, nem a ordem de sucessão, nem as obrigações, nem o processo. O cristianismo coloca-se fora do direito, como acima de tudo o puramente terreno. O direito tornou-se pois independente; pôde procurar as suas regras na natureza, na consciência humana, na poderosa concepção do justo que em nós existe. Pôde desenvolver-se em inteira liberdade, reformar-se e melhorar sem obstáculo algum, seguir os progressos da moral, curvar-se aos interesses e às necessidades sociais de cada geração. Podemos ver que, à medida que o cristianismo conquistava a sociedade, os códigos romanos iam admitindo novas leis, já não por  subterfúgios, mas abertamente e sem hesitações. Tendo sido destruídos os penates domésticos e extintos os lares, a antiga constituição da família desapareceu para todo o sempre, e com esta igualmente as regras que da sua organização derivavam. O pai perdeu a autoridade absoluta que outrora lhe havia dado o seu sacerdócio, só conservando a autoridade pela própria natureza conferida ao pai para a educação do filho. A mulher, que o antigo culto colocara em posição de inferioridade perante o marido, tornou-se-lhe moralmente sua igual.

(Fustel de Coulanges (1830-1889) - notável historiador francês - Obra: A Cidade Antiga, escrita em 1864).                                                                                 

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