A PAZ AO MUNDO!

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      A paz ao mundo! Que ingênua e desassisada aspiração das almas platônicas!

     O meu pobre Júlio Diniz continua no seu desferir de trenos1, no seu semear de ilusões, como se a farta colheita de desenganos que vem arrecadando não fosse corretivo doloroso à sua incorrigível simplicidade de bom.

     Imaginou ele que o homem havia de deixar crescer asas, como as crisálidas, para se fazerem anjos aí na Terra. Ainda não compreendeu que o homem é interessantemente mais esperto que a borboleta. Esta, se se conservasse modestamente na lagarta mole e dormente de que nasceu, não se arriscava aos carinhos dos colecionadores, às barretadas dos garotos, nem à atração fascinante dos candeeiros onde o petróleo procura, burguesmente, fazer o seu quarto de sentinela durante a ausência do sol-rei.

     Entre parêntesis. Eu não sei se poderia dizer sol-rei sem correr grande risco. Tendo nascido em uma terra onde a República faz hoje a doce felicidade material dos meus patrícios, vegetado e vivido em outra República onde a felicidade corria também com a impetuosidade majestosa e triunfante do Amazonas, e escrevendo agora sob os auspícios sorridentes de mais uma República feliz, não sei se me será decoroso falar de rei, ainda que seja do rei dos astros. Já não falo da realeza do homem, que se intitulava outrora, pomposa e orgulhosamente, o rei da Criação. Hoje já não há reis e há só má-criação.

     Mas, se me não for lícito falar em rei, previnam-me. Eu retrato-me facilmente. Não faço questão de termos. Disse rei, como poderia dizer presidente, se supusesse que cá por cima, pelos espaços luminosos, os astros haviam tido já também a sua Rotunda gloriosa e proclamado a sua liberdade e, varonilmente, soberanamente, quebrado os férreos grilhões em que viviam algemados na mais facinorosa tirania. Mas não sei se já o terão feito. Talvez. Não terão para isso menos direito que Andorra ou que a China. O progresso, quando nasce, é para todos, como diriam os taberneiros da minha terra. Bem entendido, nem dizem progresso, nem o que nasce é para todos. O que dizem é o “sol”, e “todos” são eles só.    

     Mas, como ia dizendo, se não puder dar ao astro luminoso o título outrora corriqueiro de rei, que ele conquistou em seculares campanhas contra tudo que tem pretendido empanar-lhe o brilho e tapar-lhe a luz, então digam, porque eu estou velho para conspirador. Chamar-lhe-ei o que quiserem.

     O homem, porém, não se deixa engodar com as aspirações místicas do Júlio Diniz. Anjo, que seja ele.

     Anjos de asas níveas não podem entrar nas tabernas, que são agora as capelas onde eles vão prestar devotado culto aos deuses; não podem solicitar empregos públicos, armar em heróis, insultar os miseráveis que ousam pensar diversamente.

     Os anjos não podem espumar raivas contra criaturas indefesas, não podem roubar, não podem violar, não podem matar; e estas coisas são de muito particular agrado e delicioso prazer do ex-rei da criação.

     Bem se importa ele de paz! Isso são aspirações das velhas que rezam o terço para que Deus as livre da fome, da peste e da guerra e dos maus vizinhos de ao pé da porta. Rezam? Eu não sei se rezam. Rezavam outrora. Hoje não sei se ainda existe quem reze. Pelo menos, não tenho ninguém, de meu conhecimento, que gaste verdadeiramente tempo nessas velharias, contrárias ao progresso dos povos, à perfeição dos costumes e à riqueza dos estados. E que tivesse, não o denunciaria.

     Há nesse mundo muito boa gente que me atiraria, como a cão danado, se percebesse que eu lhe fazia concorrência no honroso e rendoso mister de espião denunciante. Se alguma velhinha de bandós2, brancos como a sua pele sem sangue, quiser mostrar o vício que lhe ficou de passadas eras, enviando o seu pensamento súplice e atormentado em procura daquele velho e bondoso Pai que lhe baniram do lar, que o faça sem receio ao pé de mim, que eu não só sou pessoa de segredo, como, aqui baixinho e longe dos ouvidos honrados dos guardas sagrados da Liberdade, confesso que também sofro do mesmo vício impenitentemente.    

     Quer o Júlio Diniz que Jesus dê paz ao mundo. Eu não duvido que o nosso amoroso Mestre faça a vontade ao nosso querido Júlio. Estou até inclinado a que Jesus não precisaria da fervorosa intercessão do medianeiro valioso, para inundar esse mundo de paz, como o Sol o inunda de luz. Mas onde começo a cogitar dúvidas é se aí no mundo há quem queira receber o presente. Não digo já aceitar e agradecer, digo só - aceitar; porque isto de agradecimentos é coisa que também vai rareando mais no mercado humano que brilhantes pretos.

     Em verdade, nem há mister agradecimentos. Agradecer é ser subserviente. Isso são defeitos antigos, que há necessidade de banir. É uma velharia, e é preciso destruir velharias. O não agradecer poupa o ter que se dizer: - não tem de quê... Ora, se se ouvia sempre: - não tem de quê, era porque realmente não o havia; por isso, bem fizeram os filósofos modernos que tomaram a seu peito o engrandecimento moral do homem moderno, em afastar de curso essa moeda de toque falhado.

     Ora, se as coisas são assim, se é nessa plena e deliciosa ausência de preconceitos que o homem vive bem, para que teima o Júlio Diniz em vir desejar coisas que ele repudia, e que, num ímpeto de justíssima indignação, lhe atiraria à cara, se não tivesse a infelicidade de não saber bem onde para, presentemente, a cara triste do saudoso poeta das “Pupilas do Senhor Reitor”.

     Oh! Júlio Diniz, quer você um conselho? Não se meta, homem, onde não é chamado. Que você deseje a paz a algum sonhador antigo que na Terra ficasse cristalizado, a ressumar coisas esquecidas, vá. Agora, desejar paz ao mundo, que não deseja senão guerra, é uma sofrível prova de abelhudice.

     Convença-se de que os homens em nossa terra sabem muito bem o que querem e o que lhes convém e dispensam a sua paz, que só iria aquietar as águas, tirando-lhes a turbação onde se pesca à maravilha. Os da nossa terra e os das outras terras, que, afinal, são todos da mesma massa.

     Não me meta com eles, Júlio Diniz.  (Espírito Eça de Queirós - Médium: Fernando de Lacerda - Obra: Do País da Luz).

Notas do compilador - 1 - Trenos = lamentações fúnebres, queixas; 2 - bandós = penteado feminino em que o cabelo se divide em duas partes iguais, ao longo da cabeça.

O autor dirigi-se ao espírito Júlio Diniz que na época também fazia parte do grupo que escreveu a obra em quatro volumes, Do País da Luz, psicografada por Fernando de Lacerda. 

A  CARIDADE  É  O  BÁLSAMO  PARA  TODAS  AS  DORES,  O  OBREIRO  DE  TODA  A  PAZ,  O  ANTÍDOTO  DE  TODO  O  MAL

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