Rio de Janeiro século 19. Foto iap de postal antigo.

 

A HUMANIDADE                            

    

     A Humanidade caminha sempre. Parece que a frase dirigida por Cristo a Lázaro, havia sido proferida por Deus aos primeiros Espíritos que migraram para a Terra.

     Surge et ambula.                                                                             

     Encerra toda a missão da Humanidade. Nela se contém toda a sua história, todo o seu destino.

     Deus, ao ter aberto as portas desse mundo aos primeiros Espíritos, deve ter-lhes dito - nasçam e avancem. Venham do Ignoto e caminhem para a Perfectibilidade.

     E a Humanidade, de então até hoje, tem caminhado, ora vagarosamente ora vertiginosamente, ora por sobre caminhos retos e lisos, numa serenidade olímpica, numa tranquilidade solene, numa grandeza divina; ora correndo, saltando, rastejando, galgando precipícios, atravessando atalhos, ruindo obstáculos, destruindo barreiras, na vertigem da celeridade, na fúria da loucura, e, por vezes, na irresponsabilidade da demência.

     Caminha assim para cumprir a sentença que da vontade suprema sobre ela caiu com as primeiras lufadas de ar terreno, com os primeiros raios da luz solar.

     Podem fazer-se, às vezes, durante séculos, como durante dias, represas ao seu caminhar, como se fazem diques aos rios caudalosos; mas esses frágeis anteparos que a arte do homem cria para obstar a marcha da evolução, como a marcha das torrentes, não têm outro poder que o de avolumar, pela retenção provisória, o vulto e a força do que quer impedir, fazendo-a ganhar, pela precipitação e pela violência, com que pouco depois destrói, fragmenta, aniquila o obstáculo frágil, o tempo e o espaço momentaneamente perdidos.

     Arrasado o obstáculo, arroja-se célere, impetuosa, avassaladora, nivelando, destruindo, numa fúria de liberdade, numa ânsia de vastidão, que apavora e deslumbra, que encanta e esmaga o observador sereno, livre, desapaixonado, que de sobre o cume iluminado da justiça, através da história e da verdade, examine esse espetáculo grandioso e terrível do vencido a aniquilar o vencedor; da natureza a dominar a arte; do destino a impulsionar o homem.    

     Os acontecimentos na Humanidade não devem nunca considerar-se isoladamente.

     Querem-se vistos e apreciados no seu conjunto, na sua homogeneidade, na sua grandeza. Têm de estudar-se na sua gênese, na sua marcha, na sua evolução, e no seu resultado. Será erro vê-los sob aspectos fragmentários ou por etapas isoladas.

     O que assim fizer, será injusto, por parcial; imperfeito por incompleto. Será sectário ou apaixonado. Faltar-lhe-á a majestade serena do juiz, a grandeza simples do justo, que fazem o observador consciente, que fazem o crítico autorizado.    

     Da evolução geral da Humanidade não pode desintegrar-se nenhum fragmento. Não se deve abandonar o todo para se considerar a parte.

     Por um fragmento pode conjeturar-se somente o todo, como por um membro isolado pode conjeturar-se, em anatomia, a reconstgrução de um corpo. Mas conjeturar não é julgar. Por uma tíbia descarnada, por uma falange seca, por um crânio limpo, pode conjeturar-se a espécie a que pertencem; mas não se pode julgar dos caminhos que a tíbia percorreu em vida; da habilidade que4 tinha a mão a que a falange pertenceu, nem dos pensamentos que povoaram o crânio, da luz que ele irradiou. O crânio podia ser de um mendigo ou de um rei, dum bobo ou de um gênio, ter vivido nas trevas da loucura, ou ter fulgurado ideias redentoras. Mas será sempre o mesmo crânio, frio e feio, quando desprovido da alma, como uma candeia desprovida de luz.

     A Humanidade, na sua marcha progressiva e ascensional através das eras, desde que o entendimento humano começou a deixar rastro, até onde a ciência de hoje, na sua presunção conscienciosa pode atingir, conjeturando, é uma coisa grandiosa, deslumbrante, onde se vê, indiscutivelmente, o influxo soberano de uma vontade uniforme, irresistível, insofismável, de uma missão fatal.

     Todos os acontecimentos, todos os acidentes, quer atuem na vida do globo, quer influam na vida do homem; quer tenham a grandeza ciclópica das catástrofes mundiais, que a pequenez do aniquilamento de vidas humanas, desenham e vincam a estrada ininterrupta, sinuosa, que houve de percorrer-se, para se chegar onde estamos, desde que sobre o espírito do homem caiu a sentença divina: - surge et ambula. A luta contra os frios, a dominação dos frios; a luta contra as feras, a destruição das feras; a luta contra as florestas, o desaparecimento das florestas; a luta contra as águas, o vencimento das águas; a luta contra os ventos, a subjugação dos ventos; a luta pela conquista do fogo, a posse do fogo; a luta contra os animais, a domesticidade dos animais; a luta contra o raio, o domínio sobre o raio; a descoberta da eletricidade, o aproveitamento da eletricidade; o estudo dos sons, a harmonia dos sons; a construção da palavra, a grandeza da palavra; a elaboração das ideias, o fecundante poder das ideias; a constituição da família, a constituição da sociedade, a conquista da liberdade, o esplendor das artes, a maravilha das ciências; tudo isso que constitui a herança do homem, ligada e aumentada ininterruptamente de geração em geração, visto no detalhe de cada coisa, pode ter manchas, desigualdades, fraquezas; pode ter custado crimes pelo preço de virtudes; pode ter sido construído, a pedaços, argamassados em sangue; pode representar atentados monstruosos contra a justiça, contra o direito, contra a vida; mas visto no seu conjunto, na grandeza empolgante da sua uniformidade, no resultado final do trabalho humano, nesse bloco enorme, prodigioso que as gerações têm vindo rolando até nós, dá a impressão do assombro, o deslumbramento da superioridade, que há de evocar ao espírito do observador a ideia avassalante de que, para guiar o homem através desse labirinto de lutas, eriçado de obstáculos, semeado de abismos, povoado de incertezas, com o desconhecido em frente, o mistério por futuro, a ignorância por carga e por companheira a dor, é indispensável haver um fio inquebrável, um princípio divino, uma lei imutável, uma energia suprema, que só podia emanar de Deus.

     O homem, como a Humanidade, tem manchas que o enegrecem e luz que o ilumina, adquiridas na trágica elaboração da sua vida. Da sua vida de dias, da sua vida de séculos, da sua vida de sempre.    

     As manchas constituem a sombra de que a luz se destaca.

     As manchas são o escuro, e o escuro criou-o Deus para que nele se não visse.

     A luz é que guia, fertiliza e ilumina. A luz é que se vê e deixa ver. A luz é que aquece, vivifica e produz. A luz descobre, a luz purifica. A luz é o dia, a luz é a vida.

     O escuro só se vê onde está, e cega quem o vê. A luz caminha através dos cérebros, através dos tempos, como através do espaço e através dos mundos.

     Também o Sol tem manchas; e o Sol é o centro do sistema de que a Terra é minúscula poalha; é o gerador da vida de mundos, de homens e de flores.

     As manchas da Humanidade, como as do homem, ficam onde se criaram; e para as enxergar é indispensável procurá-las, descobri-las. Para as destruir e apagar é que se tem vindo lutando incessantemente.

     Há uma força, que constitui uma potência luminosa, e vem, de sempre, jorrando luz aos feixes, sobre os escuros da Humanidade. Vem cauterizando as chagas, aperfeiçoando os princípios, dignificando os caracteres.

     Essa força, essa luz, que com Pactolo1 carreja2 ouro nas suas ondas, chama-se Evolução.

     A evolução é a deusa que preside aos destinos da Humanidade. É ela quem lhe regula os passos, quem lhe desimpede o caminho, quem lhe ensina o progresso e quem lhe entesoura o saber.

     O laço que ata umas às outras as vidas do homem, é alma; o laço que prende todos os atos da vida coletiva da Humanidade, é a Evolução. É a base das civilizações; é a força propulsora do progresso eterno.

     É o colossal êmbolo da máquina humana, para lhe imprimir a ação; é o fluido vaporoso que lhe imprime a vida.

     A evolução é a alma social.

     A evolução, sendo o produto do trabalho do homem, é o influxo da vontade divina.

     É a causa irresistível que o impulsiona para avante; é o quid3 misterioso, abstrato, intangível, que estabelece e desenvolve permanentemente, no espírito humano, o desejo, sempre insaciado de ir mais além; de saber mais, de adquirir mais e de mais amar.

     Sucede, por vezes, à Humanidade, ser impelida por essa estranha energia, sem orientação definida, e, então, correr às cegas, chocar-se contra atritos, recuar, avançar, para voltar a recuar, hesitante, perplexa, duvidando de si ou confiando demasiadamente. Debate-se no vago como uma ave cega.

     Caminha no escuro. Caminha, não, move-se; move-se desordenadamente, ora tateando, ora precipitando-se, incerta, como um cego abandonado.

     Parece que a luz que a iluminava se extinguiu ou, quando menos, se eclipsou.

     Então, surge-lhe o Destino e acende-lhe um facho de que irradiará nova luz, para iluminar o caminho ao Ahasavero eterno.

     Esses fachos têm nomes vários, como várias foram as épocas e as regiões em que houve necessidade de aparecerem; e derramaram luz conforme as exigências do estádio em que o homem se encontrava.

     Chamam-se Brama, chamam-se Buda, chamam-se Confúcio, chamam-se Moisés, chamam-se Sócrates, chamam-se Platão, chamam-se Cristo, chamam-se Maomet, chamam-se Kardec.

     Outros de menor esplendor, formando interminável cadeia de luzes, marcam os passos da evolução humana.

     São deles que irradia a sublimidade na poesia, a perfeição na arte, o aperfeiçoamento nas indústrias, o progresso nas ciências.

     Cada nome consagrado na história da Humanidade, representa um fato, uma conquista, um direito, um valor.

     Cada um deu trabalho e deu exemplo. Cada um produziu um esforço, que, na resultante final de esforço coletivo, imprimiu movimento irresistível no aceleramento da perfectibilidade social e espiritual.

     Nada no mundo é perdido.

     Todo esforço tem a sua utilidade; toda dor tem a sua compensação.

     Ao examinar-se o percurso do homem, não pode deixar-se de se lhe reconhecer um destino, de se lhe supor uma missão.    

     Quem lha impôs? O Acaso?

     Mas que é o Acaso?

     É este um enigma que nenhum Édipo conseguirá decifrar; uma interrogação a que nenhum sábio saberá responder.

     O acaso é a força inteligente que tudo rege; é a origem providencial de onde tudo mana. O acaso é uma palavra; debaixo dessa palavra está uma incógnita.

     Os crentes chamam a essa incógnita Deus; os ecléticos, Providência; os fatalistas, Destino; os descrentes, Lei.

     Cada um, a seu turno, busca uma ideia que lhe satisfaça o raciocínio, que lhe explique o que é de natureza inexplicável. Joga com palavras, joga com ideias, mas não ilude a nudez, a brutalidade, do fato a que obedece sem conhecer.

     Esse fato é a Causa. Obedece-lhe, como um átomo de pó obedece ao furacão que o impele. A causa, é a mola oculta, que aciona a vida Universal.

     Querer saber de que dinâmica vem a energia a essa mola, é querer conhecer o incognoscível.

     Se não se conhece a origem, conhece-se, entretanto, o efeito.

     É evidente que tudo no mundo em uma razão de ser; como é evidente que tudo está ligado pelo fio inquebrável da evolução, que serve de guia à Humanidade nos labirintos do tempo.

     Tudo se subordina a essa razão: o homem como a Natureza. Tudo tem a sua marcha evolutiva, de acesso, de avanço, no escuro misterioso do desconhecido. Tudo assalta os redutos do futuro, na conquista, sempre ambicionada e sempre inatingida, da Perfeição.

     A marcha faz-se, por vezes, serena e plácida, por vezes agitada e revolucionária.

     Os cataclismos cósmicos, como os cataclismos sociais; os terremotos como as revoluções; a subversão de civilizações, como a subversão de continentes, têm uma razão de ser suprema, seguramente providencial.

     Será a de acelerar a marcha do aperfeiçoamento geral a que se chama Progresso?

     O progresso é uma conquista fatal do homem, é uma conquista fatal da Natureza.

     O homem, porém, como é o agente consciente do Progresso próprio, crê a sua conquista um dos seus atributos voluntários. A voluntariedade, porém, não existe. O que lhe dá a ilusão do seu arbítrio, é a obediência à corrente que o impulsiona.

     O homem não pode isolar-se dessa corrente. Caminha nela, como um cepo à flux de uma queda d'água.

     Se por milagre pudesse alhear-se dela e parar, deslocava-se da sua época, e perdia todo o esforço da sua ação. Coisa alguma pode sair do seu meio, sem risco de perder-se. Tudo requer ambiente próprio.

     O homem contemporâneo do sílex não poderia ser contemporâneo da eletricidade. O homem das grandes florestas não poderia viver hoje nas grandes planícies, como o homem habituado aos confortos de hoje não poderia ser o companheiro do urso nas cavernas.

     A perfectibilidade humana seria impossível, sem a perfectibilidade da Natureza.

     Ora, se o homem tem progredido pelo arbítrio próprio, em que origem se tem impulsionado o progresso da Natureza?

     Estamos em face de um progresso que pode considerar-se raciocinado: o do homem; outro que pode considerar-se irraciocinado e fatal: - o das massas naturais.

     Desde que a Natureza não raciocina, não pensa, não é inteligente, não é voluntariosa, e caminha, e progride, temos que admitir que o homem caminharia também ainda quando não pensasse, não tivesse vontade, ou não quisesse.

     É, pois, evidente que o progresso é uma força livre, espontânea, irresistível. É um fator mesológico, um fator de seleção.

     Na sua dinâmica social obriga o homem à transformação, como na sua dinâmica física obriga à modificação do mundo.

     O homem e o Mundo obedecem à sua força no selecionamento transformista dos seus organismos, como obedecem às leis naturais nas suas vidas.

     A evolução material do mundo obriga à evolução espiritual do homem. O Mundo, como o homem, teve o seu início, tem o seu desenvolvimento e terá o seu fim, como organismo movimentado e vivo.

     Vivem enquanto o meio lhes for propício. Ora, o meio é transitório e finito. As condições transformáveis da sua existência, hão de, na sua lenta modificação, tornar-lhes a vida impossível. Dentro em que tempo?

     Quando, um e outro, tiverem, nesse meio cósmico e nesse meio social, a sua missão finda.

     Ao homem, como às civilizações, às sociedades; e - ainda às instituições sociais, organismos fragmentários dessas sociedades e dessas civilizações, que depois de desempenharem o papel que lhes é distribuído, naturalmente distribuído, na cena da vida evolutiva, desaparecem para serem substituídas por outras, mais perfeitas ou menos perfeitas à nossa visão e ao nosso apreço, mas mais adequadas ao quadrante histórico em que emergem e têm de funcionar.

     A impaciência trá-las antes do momento oportuno?

     Perturbam, desorganizam e caem para serem afastadas, e volverem quando o contrarregra da grande cena lhes indica a deixa.

     Representado o seu papel, retiram para ceder o lugar, ao que naturalmente as substituir.

     Não retiram a tempo?

     Retirarão violentamente.

     Quem pode prever quando será essa oportunidade?

     Ninguém.

     Chega, quando chega.

     Sente-se, conhece-se, como se conhece quando a fruta está sazonada, quando uma obra está feita. Quando as coisas caminham sem atritos que desequilibrem, sem violências que incomodem.

     Quando os acontecimentos ajustam à época e ao meio, como um parafuso a uma porca.

     Impor um fato à força, impor uma ideia com violência, é meter um parafuso a martelo. Quem o tentar é louco.

     Tudo, na vida, tem o seu momento. Tudo requer o tempo próprio, a maneira apropriada.

     As coisas naturais, como as coisas sociais.

     Pode acelerar-se a marcha das ideias e do progresso, como se pode acelerar a maturação da fruta, o aparecimento das flores.

     Para isso é necessário cultivador adestrado, ambiente especial. E, apesar de com os filtros da arte se forçar a natureza, o produto desta exoticidade há de ser sempre exótico. Falta-lhe a beleza e a perfeição natural; faltam-lhe as qualidades predominantes do cultivo à luz, ao sol, na liberdade.

     Plantas de estufa, frutos de estufa, de vida efêmera, que o ar sadio e a vida livre estiolam e matam. As ideias querem-se como as árvores; no terreno apropriado, em clima apropriado. As plantas dos trópicos não se dão nos polos; os organismo das regiões frias não resistem nas regiões tórridas.

     Podem lançar à terra as melhores sementes, que não germinarão antes da época fecunda, da época própria. Nem por muito avançar na sementeira, o cultivador colherá o fruto antes daquele que só semeou quando devia.

     Tudo ensina que se deve aguardar, na marcha da vida, o instante preciso em que a evolução, como a fortuna, passa por nós.

     Se, ao vê-la passar, lhe entrarmos no cortejo, tudo caminhará sem esforço, livremente, como o fumo impelido pelo vento. Nenhuma barreira, nenhum obstáculo, impedirá a marcha. Como nós os acontecimentos; como os acontecimentos tudo que a evolução anima.

     Tudo que o homem conquistou e há de conquistar, no campo das ideias, das ciências, das artes, no grande arraial da vida, tudo existiu de sempre. Nada há a criar; há só a descobrir.

     E porque é que havendo tudo já, não apareceu já tudo?

     Qual a causa a determinar que o homem vá encontrando, dia a dia, uma coisa nova na esfera da sua atividade, como quem recolhe, grão a grão, a areia de uma ampulheta?

     É porque as coisas têm de desempenhar a sua função do mundo, como a areia a tem de desempenhar na contagem do tempo.

     Os acontecimentos, na marcha da Humanidade, têm de surgir como consequência lógica e natural uns dos outros. O velho princípio de que a Natureza não admite saltos, tem lata aplicação a tudo.

     Se aparecerem, de surpresa, desligados dos que logicamente os antecederam e dos que logicamente lhes hão de suceder, não haverá a homogeneidade estrutural que lhes há de dar a coesão e a perdurabilidade. Não haverá gênio nem força, autoridade nem querer, que os mantenha e consolide.

     A suprema sabedoria está em os conduzir de modo a que cheguem quando são esperados, e irrompam quando são necessários.

     O homem deve regular os seus atos pela eterna lição que a Natureza lhe dá.

     Todos os fatos de que o Destino é o regulador surgem só na hora própria. Tudo tem a sua função e o seu lugar, como uma peça de relojoaria; tudo tem o seu momento, eternamente fixado, como a hora da maré.

     A vida coletiva da Humanidade, na parte espontânea da evolução, tem essa hora. Se a não aproveita e a deixa fugir, tem de correr para a apanhar; se lhe passa à frente, tem de esperá-la. A lei evolutiva é a trajetória tranquila, é a ação lenta, mas firme. Sabe o que quer e para onde caminha. Não se apressa, mas não se demora.

     Quando a Humanidade, pelo seu esforço, pretende contrariar essa marcha majestosa, entra na revolução. Faz a revolução para caminhar, faz a revolução para parar, faz a revolução para retroceder. A revolução é o solavanco, é o arbítrio. A revolução destrói o movimento isocrônico4 e mecânico da sociedade.    

     Agita para adquirir, agita para conservar, agita para destruir. Na revolução não há leis; mas a revolução obedece, muitas vezes, a um fatalismo histórico, a uma necessidade humana. Toda ação que desequilibre, toda que precipite, é uma revolução.

     Há revoluções benéficas, há revoluções luminosas, como há revoluções que são cataclismos, e revoluções que são uma noite escura.

     Há as que destroem masmorras, há as que erguem cadafalsos; há as que quebram grilhões, há as que fazem a escravidão. Umas projetam clarões, formam sóis que ficam a iluminar o mundo; outras queimam corpos, cegam consciências, encarceram o pensamento, fazem a escuridão.

     Algumas avançam além da sua época, penetram profeticamente no porvir; outros recuam a um passado morto, entram nos sepulcros das eras e das ideias idas.

     Chamam-se 89 e dão a emancipação; chamam-se S. Bartolomeu e dão a perseguição.

     É Brútus abrindo o caminho à Liberdade através do peito de César; e o senado firmando a tirania sobre os cadáveres dos Gracos.

     Nero incendiando Roma, como Domingos de Gusmão acendendo as fogueiras, fazem a escuridão. A Reforma destruindo o fanatismo, a Enciclopédia preparando o 93, iluminam o mundo.

     Inocêncio criando a Inquisição, Henrique IV promulgando o Édito de Nantes, fazem revolução, - um a revolução das trevas, apesar de ter sido em nome de Deus que inventou as piras humanas para  alumiar a fé; outro a revolução da luz com que pretendeu extinguir a intolerância.

     Essas revoluções são, por igual, úteis à Humanidade, como a noite e o dia são úteis ao mundo. A natureza exige as trovoadas e exige os dias de sol.

     As inundações são úteis apesar do mal que fazem; as estiagens são prejudiciais, mau grado os dourados dias que as ocasionam.

     São fenômenos que se encadeiam, que se preparam e se completam.

     Os excessos alternam-se e substituem-se. O excesso de tirania conduz à liberdade; o excesso de liberdade conduz à tirania.

     A tirania de um ou de muitos é sempre a tirania; como a liberdade conquistada por um ou por muitos é sempre a liberdade.

     Quando se entra no campo dos acontecimentos extraordinários, não se sabe nunca se imediatamente conduzem a um bem a um mal; mas pode afirmar-se, com segurança, que no seu resultado final, no cômputo geral dos fatos, representam um bem.

     Os abalos sísmicos destroem cidades, subvertem ilhas, aniquilam vidas e preciosidades; mas mostram novas faces às coisas, fazem emergir das águas revoltas dos oceanos novas ilhas, preparam cidades novas, e novas preciosidades.

     Perderam-se as vidas? E quem vos diz que essas vidas se perderam? As vidas,aí, são os agentes do progresso material e espiritual. Podem perder-se aos vossos olhos, e caminharem serenas pelo Universo fora, como um aeróstata se pode perder aí, à vossa vista finita, ao avançar pelo espaço infinito na conquista da liberdade, na conquista da amplidão.

     Tudo tem um fim util. Todos os fatos representam satisfação à necessidade evolutiva.

     A sabedoria do homem está em percebê-los para os dominar e aproveitar. Ou os guia e triunfa, ou é dominado por eles, vencido e esmagado. Ainda quando esmagado, pode legar benefícios, pelo exemplo e pela lição.

     O homem pode cair, mas a Humanidade caminha sempre. Caminha mesmo quando dá a impressão de recuo, avança quando simula parar.

     O Progresso, como a Liberdade, vive de dedicações, alimenta-se de vidas. Caminha por sobre os cadáveres dos seus obreiros, dos seus adoradores, como os Césares romanos caminhavam por sobre os cadáveres dos seus gladiadores e por sobre os corpos palpitantes dos seus escravos.

     São como a luz, que precisa queimar para viver.

     Os homens são nada, a Humanidade é tudo.

     Os homens são os fatores, conscientes ou inconscientes, da civilização; os acontecimentos são os acidentes dessa civilização.

     As civilizações são o produto do trabalho humano; como as religiões, as filosofias, as ciências, as artes, são elementos das civilizações, são o ouro depurado no cadinho que se chama cérebro, conduzido para o eterno tesouro da coletividade humana pelo luminoso obreiro que se chama Espírito.

     Cada homem carrega o seu grão para o celeiro, cada civilização produz o seu esforço para a perfectibilidade.

     O homem desaparece, o grão fica. A civilização passa, o seu trabalho acumula-se.

     Cada civilização tem a sua época, cada época o seu fim, cada século a sua missão.

     Cristo é um obreiro que conduz o seu grão. Morre numa cruz, mas o grão fica e chama-se Cristianismo.

     As civilizações asiáticas desapareceram, as civilizações africanas desapareceram, as civilizações gregas e romanas desapareceram; mas a Humanidade ficou com as filosofias de umas, com as artes das outras, com o saber e com a experiência de todas, atestando as suas passagens e os seus trabalhos, como as Pirâmides do Egito ficaram atravessando os anos a atestarem a existência dos desconhecidos obreiros que as edificaram.

     A Humanidade, caminhando sempre na conquista de novos estádios, ora se afogando em sangue, ora proclamando a intangibilidade da vida humana; divinizando-se nos triunfos dos seus guerreiros, alcançados com a morte e com a destruição; admirando-se na renúncia, na abnegação ou na piedade dos seus mártires, dos seus sábios e dos seus santos; arrancando segredos à Natureza; desvendando mistérios da Criação; percorrendo os céus, preparando a terra, atravessando os mares, dominando os ventos, conquistando o fogo aos deuses, a força aos titãs; pregando o Amor, exercendo o ódio; fabricando maravilhas; arrancando vítimas à morte, oferecendo-lhe holocaustos e sacrifícios; inventando ídolos, destruindo ídolos; formando teorias; descobrindo ciências; endeusando mitos; destruindo a tirania ou adorando tiranos; admirando tudo, repulsando tudo, rindo, chorando, mal dizendo, combatendo, saltando, tropeçando, caindo; ora engrandecendo-se em assomos de gênio, ora degradando-se nos requintes da crápula; ora deslumbrada, ora aterrada, chegou ao seu estado atual - transição entre um mundo que passou e outro que surge; entre ideias que morrem e ideias  que nascem, entre civilizações que se desagregam e civilizações que se formam, entre sociedades que se suicidam e sociedades que lutam.

     O dia de hoje da Humanidade partilha do dia de ontem e do dia de amanhã. O modo de ser atual da Humanidade, não tem presente. Oscila entre o passado e o futuro.

     Hesita, como um viandante entre dois caminhos. É indeciso como um crepúsculo entre uma noite e uma aurora.

     Por toda a parte a incerteza. No espírito a dúvida; na matéria a desordem. Em tudo a contradição.

     Anseia pelo infinito e proclama o infinito. Reconhece que o ignorado é incomensurável, e protesta contra tudo que suponha chocar com o que conhece.

     Insurge-se contra o mistério, mas reage contra quem procura arrancar a venda ao mistério. Ama a Verdade, mas repudia-a; diviniza a Ciência, mas não aceita sem reação as conquistas da Ciência.

     Em nome do Progresso, combate o Progresso; em nome da Liberdade, estrangula a Liberdade. Ama a Luz, mas tem-lhe temor.

     Crê que o Universo não tem fim, que a Criação é um assombro, que numa flor, como numa estrela, num inseto como num mundo, num cérebro como num sol, num corpúsculo como num oceano, há maravilhas portentosas, que não sabe fazer, que não sabe explicar, e que, existindo, devem ter sido feitas; mas nega que possa haver quem as fizesse.

     Vê em tudo a harmonia, e reage contra a existência de quem estabeleceu e rege essa harmonia. Sente que do microrganismo ao macrocosmo existe uma lei fatal de concordância, e não quer admitir a Causa que criou e mantém essa lei.

     Acha natural e possível o que conhece, ainda que constitua maravilhas do inexplicável; chama sobrenatural e impossível às coisas que desconhece, ainda que sejam da mais simples concepção, e constituam a sequência do que é sabido.

     Que surgirá, finalmente, desta época de luta entre o que existe e o que quer existir, entre o organizado e o organizável, entre a materialidade e o ideal?

     O extermínio, suporão uns; a criação, suporão outros. O mal, dirão os tímidos; o bem, dirão os confiados. A desordem, dirão os conservadores, os adoradores do passado; a ordem dirão os avançados, os sonhadores do futuro; a anarquia, temerão os receosos; a perfeição crerão os esperançados.

     Eu digo: - vem o Progresso.

     Como virá? Não sei. De onde virá? Não sei. Por quem virá? Não sei. Mas vem. É natural, é da lei, como é natural e da lei que a terra gravite, os sóis iluminem, os corpos atraiam, os cérebros pensem.

     Tudo no Universo se transforma. O transformismo é o progresso.

     A Humanidade transforma-se? A Humanidade progride.

     Transforma-se para o mal? Transforma-se para o bem?

     Progride sempre, porque ninguém sabe o que é o mal e o que é o bem. O que é um mal para hoje, constitui um bem para amanhã; e num ato aparentemente bom pode estar a origem de um mal, como num tufo de flores se pode enroscar uma víbora.

     Em absoluto não há nada bom, como não há nada mau. O que há são fatos, são princípios, são ideias. Os fatos, os princípios, as ideias, representam esforçoes, trabalho. Todo esforço representa uma energia; toda energia tem a sua utilidade.

     A energia é um fator do movimento; é a molécula da forço. O movimento é a vida, a força é o poder.

     O poder, na vida, constitui o progresso. O poder é um atributo da sabedoria; a sabedoria a resultante da experiência; a experiência o impulsor de aperfeiçoamento; o aperfeiçoamento o dinamismo do progresso.

     Não devemos nunca temer o que há de vir. Será sempre melhor do que o que passou, e do que o existente.

     O que vem, como tudo que se adquire, custará trabalho, sacrifícios, vidas; mas a Perfeição faz-se só à custa de vidas, sacrifícios e trabalhos.

     O que, isoladamente, pode representar um sacrifício e uma dor ao homem, pode ser, à comunidade, um benefício e uma alegria.

     Um sábio, que numa conquista ou numa descoberta sacrifica a sua vida, lega uma glória e um benefício à Humanidade. Um evangelizador, que renuncia a si próprio para ir predicar a paz, e ensinar o bem-estar aos outros, faz um sacrifício; mas dá à Humanidade um exemplo que a engrandece.

     Os acontecimentos sociais não podem ser aferidos pela bitola dos nossos interesses. A nossa conveniência é infinitamente mesquinha para lente, através da qual se possa ver a necessidade humana.

     Cada um de nós acha ótimo ou acha péssimo, segundo o modo de ver restrito da nossa vantagem. Cada homem vê a vida através do prisma do seu cérebro, e quer julgá-la como se esse cérebro fosse coisa perfeita.

     Esquece que essa lente só lhe deixa ver a sua conveniência, e que a conveniência individual é a lei do egoísmo. O homem, obedecendo ao seu egoísmo, seria capaz de fazer parar o sol para se aquecer e alumiar, sem querer saber se os outros gelariam ou ficariam nas trevas.

     Contra o nosso querer, e sem nos pedir consulta, o mundo há de caminhar sempre, até findar a sua missão.

     Como Arquimedes não encontrou o apoio em que firmasse a alavanca para o fazer sair dos eixos, o homem não encontrará o calço que lhe trave a roda. Rolará no espaço, rolará no tempo, rolará para a Perfectibilidade, enquanto os homens, como fogos fátuos, aparecerão e desaparecerão no escuro dessa vida.

     Não será porque eles queiram ou não queiram que haverá chuva, sol, dia, noite, saúde, moléstia, vida, morte.

     O homem não pode impedir coisa alguma, ainda que, na vertigem da sua ambição, suponha que está tudo à sua mercê.

     O homem só pode, enquanto obedece à lei geral, como o madeiro só caminha na água enquanto obedece à corrente. Quando reagir para, como o madeiro preso a um obstáculo; e se teimar, subverte-se no vórtice dos acontecimentos, como o madeiro no redemoinho das águas.

     Pode proclamar-se senhor de tudo, como Nabucodonosor se proclamou deus, que não será, sequer senhor de um só dos seus pensamentos, de um dos minutos da sua vida, de uma poalha de luz, de uma molécula de matéria.

     Pode crer-se dominador do mundo, que não domina o seu cérebro, o seu mais enfraquecido músculo, o mais insignificante acontecimento. Terá a ilusão de os subjugar, se lhes obedecer.

     Excepcionalmente guiará, com audácia a perícia, acontecimentos ou multidões, sentimentos ou ideias, se souber conduzi-los na fluência, como poderá guiar uma jangada se souber encaminhá-la no curso de um rio. Não poderá, porém, fazê-los arrepiar caminho nem desviar de sua trajetória, como não poderá fazer que uma pedra solta volte à funda que a despediu, nem uma bala se desvie da trajetória que pela força da deflagração lhe foi imprimida.

     Quer queira quer não, a Humanidade caminhará na busca, sempre insatisfeita do infinito.

     O infinito é o progresso, é a Sabedoria, é a Perfeição.

     O infinito será aí inatingido, porque é infinito.

     Nunca saberá o bastante para dizer que sabe; nunca poderá o necessário para crer que pode; nunca progredirá o indispensável para ter a certeza de ter atingido a Perfectibilidade.

     Haverá sempre o mais além; e o mais além é tudo.

     O que sabe, o que pode, o que visiona, é nada. O mais além é a esperança, é a ambição. É o desejo a aguilhoar a fé; é a fé que fortifica a crença; é a crença que estimula o querer.

     O mais além é o que se não possui e se ambiciona; é o que se ama e se deseja; é o que se ignora, mas se pressente.

     O mais além reside no espaço que a nossa vista vê sem lhe alcançar o termo, que o nosso pensamento idealiza sem lhe encontrar o zênite. Está na perfeição inatingida na arte; está na tranquilidade inatingida da vida, está na saciação inatingida na ciência; está na bondade inatingida pelo coração; está na infinidade de sons, de cores, de afetos, que aí rodeia o homem, que ele intuitivamente pressente, de que ele dia a dia arpoa uma parcela, mas que jamais poderá conseguir in totum.

     A Humanidade é uma coisa grandiosa, uma coisa bela, mas não tanto pelo que intrinsecamente vale, como pela manifestação que representa.

     É bela e é grande porque é uma obra do Criador. É igualmente belo e grandioso tudo que existe no Universo, porque tudo representa a maravilha, o incognoscível.

     Tudo constitui emanações do mesmo poder, fluxos da mesma origem.

     O homem é uma maravilha, e uma força, como força e maravilha é o micróbio, como força e maravilha é o gérmen fecundante da semente da violeta e do carvalho, como força e maravilha é o óvulo de que nasce a vida, e a doença que conduz a morte.

     O homem vive porque evolui, e evolui porque vive.

     Não tem dois segundos iguais na vida do seu espírito, como na dinâmica da sua matéria. As suas células transformam-se incessantemente, como incessantemente se transformam os seus pensamentos. Tudo se modifica, tudo se renova no seu ser.

     Como o homem a Humanidade; como a Humanidade o Mundo, como o Mundo os Mundos.

     Se lhes fosse possível parar, aniquilavam-se.

     Ora, a ordem que rege a Humanidade, e rege o Universo, emana de uma origem.

     Que é essa origem?

     É a Energia.

     A Energia deve ter uma Causa: - qual é essa Causa? Quer queiras quer não, Humanidade frágil, ainda que doa à tua vaidade, fira o teu orgulho, choque a tua cegueira e desacorde da tua ciência, e da tua onisciência, essa Causa, é a Entidade inapreciável, fulcro perene do existente, que denominamos - Deus.

(Espírito Victor Hugo - Médium: Fernando Lacerda - Obra: Do País da Luz - Volume 3). 

Notas do compilador: 1 - Pactolo: grande riqueza inexplorada;  2 - carreja: arrasta, conduz;  3 - quid: que;  4 - isocrônico ou isócrono: de duração igual (as pequenas oscilações de um pêndulo são isócronas).

VIESTE  À  TERRA  PARA  FAZER  ALGUMA  COISA  E  ESSA  MISSÃO  TEM  GRANDE  IMPORTÂNCIA.

                                                                                             PRÓXIMO                                                                                                INÍCIO