IVAN, O TERRÍVEL

(Trecho do Espírito Leão Tolstói - Médium: Yvonne Pereira - Obra: Ressurreição e Vida!).                                                                                                                                                                                                                                                                                   

     Foto de Léon Tolstói,  jovem

Tolstoy em 1885

Nota do compilador: IVAN IV, o terrível (1530-1584), czar da Rússia (1533-1584), foi o primeiro a tomar o título de Czar. É reconhecido como o grande unificador da Terra Russa. Suas maldades lhe trouxeram encarnações penosas, como na condição de um leproso e cego, longe de família e na solidão das estepes russas e que abaixo o Espírito Léon Tolstoi nos mostra:

     "Enquanto possuí olhos - prosseguiu o leproso, alheio às considerações do visitante - e a dádiva da vista não me abandonara, li e reli os Evangelhos, procurando assimilar a sua essência. Sobre eles meditei até horas mortas da noite... e consegui encontrar o meio de suprir minha alma de conhecimentos bastante preciosos, para me ampararem quando os olhos se apagados profundos, de transcendência psíquica. Li Swedenborg1 e os clássicos psiquistas ingleses, que estudam e investigam a sobrevivência da nossa alma após o decesso físico. Li os filósofos psiquistas franceses e belgas, que se dedicam ao intercâmbio supranormal entre os chamados vivos e as almas dos chamados mortos. Meditei, através da leitura de jornais estrangeiros, sobre os sensacionais fenômenos de Hydesville, nos Estados Unidos da América do Norte, quando as jovens irmãs Fox se tornaram intérpretes dos Espíritos alados que desejaram provar aos homens a sobrevivência da alma humana, fenômenos que marcariam período novo na evolução moral e cultural da Humanidade. Li Allan Kardec, esse francês genial e eminente, recém-falecido, que soube reunir, coadjuvado por Espíritos, em cinco preciosos volumes, a Doutrina da Imortalidade, que faltava à consciência humana... Doutrina que explica à saciedade o eterno tema que preocupa nossa inteligência: “Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Que é a vida? Que é a morte? Por que existimos? Por que morremos? Por que sofrem uns, enquanto outros gozam? E agora, que não mais enxergo, possuo para meu socorro os amáveis olhos deste abnegado jovem, que para mim lê as tentativas do nosso sábio compatriota Alexandre Aksakof, ansioso por disseminar as mesmas experiências na sociedade russa, apesar do quanto se vê repelido, e ansioso por vê-las acatadas pelos acadêmicos dos nossos institutos de cultura científica..."

     Interessado, o Conde Dimitri, que jamais ouvira tal conversação, e que se fatigava na incômoda posição em que se achava, cansando os servos, pediu para sentar-se, esquecendo-se de que se encontrava em visita a um leproso. Karl, o anão, correu, solícito, com uma poltrona, auxiliando os criados a acomodarem o amo, e declarando delicadamente:

     - Não tenha receio, Excelência! Nosso doente apenas ocupa a sua própria cadeira e o leito em que repousa.

     - Tenho as pernas paralíticas, exatamente como tens as tuas, Kozlovsky... - volveu Dimitri. - Não posso caminhar. Sinto-me imensamente desgraçado por isso. Porém, dize-me: onde encontraste tais livros, quem os fornece?

     "- Karl escreve aos autores ou aos editores. Confessa a minha amarga situação e solicita os livros. Soube de tais publicações graças a jornais franceses, ingleses e alemães, que Karl costuma obter. Recebo, pois, até de particulares, ingleses e franceses, revistas e jornais de assuntos psíquicos, livros, magazines, cartas confraternizadoras, que são outras tantas teses a ser estudadas, etc. E também escrevo crônicas para os mesmos jornais, ou antes, dito-as para Karl escrever. E assim tenho aprendido, Excelência, que, se sou o monstro que aqui está, é que tenho vivido outras existências corporais neste mundo! Vivi outras vidas no pretérito, durante as quais errei, cometi crimes, contra a sociedade e as leis de Deus! E agora, assim prisioneiro, tolhido nas atitudes por ter abusado da liberdade própria de cada indivíduo, expio o passado, para expungir da consciência a mácula desonrosa das infrações de outrora. Compreendi que este jovem Karl, enjeitado, recém-nascido, à porta de minha antiga loja de drogas, e por mim criado com desvelo, educado com ternura pelo meu coração, que não conhecia o sentimento paterno, foi cúmplice dos meus desatinos pretéritos, em outra vida planetária terrena... expiando e reparando, por sua vez, agora, a meu lado, os débitos adquiridos então. E igualmente estou compreendendo que Vossa Excelência, Senhor Conde, a quem não posso enxergar as feições (perdão para a ousadia da revelação), também, fez jus, na presente ou em outras vidas passadas sobre a Terra, à penalidade que no momento o detém prisioneiro de uma paralisia que zombou de todas as possibilidades havidas na Ciência para desaparecer!

     Não obstante, tal como me vê aqui, repito, sinto-me feliz! A Doutrina da Imortalidade arrebata o crente para ideais elevados, ensinando-o a enfrentar os acontecimentos da vida, sejam os mais melindrosos, por um prisma diverso daquele que os outros homens adotam. Sim, sou feliz, porque resignado à minha condição e certo de que possuo uma alma imortal criada à imagem e semelhança de Deus, a qual progride e se eleva no carreiro da Eternidade, para a glória de uma felicidade imprevisível; e que essa mesma alma, ao decesso deste corpo, que sinto apodrecer enquanto o habito, estará linda e aclarada pela experiência educadora, louçã e sorridente, entoando hosanas a Deus por esta bendita expiação, que me está redimindo através de angústias inconcebíveis a outrem!

     Excelência! Já ouviu falar da “reencarnação”? Pois é sublime lei da Criação, que opera a reeducação das almas culpadas! Hoje, sob o acúleo da dor, depois de benemérita iniciação sobre as páginas daqueles códigos brilhantes, já citados, e das meditações e dos raciocínios a que a mesma iniciação arrasta, despertou em meus refolhos psíquicos uma poderosa faculdade: o sentido íntimo! E esse sentido afirma - prova-me! - que vivi resplendente de poderio sobre o trono da Rússia, em passada etapa reencarnatória! Fui Yvan, o Terrível, aquele Imperador sem entranhas da nossa pobre e heroica pátria, que semeou desgraças e sangue, desesperações e morte, do alto daquele trono que aviltou com as crueldades que, sem cessar, praticou contra seus súditos!"

     Aterrorizados, os criados de Dimitri persignaram-se a tremer, ao passo que este, muito pálido, a voz alterada pela emoção, retorquiu, chocado, e Karl escrevia sobre uma mesinha baixa, não parecendo ouvir o discurso de seu pai adotivo:

     - Mas... Nosso antigo Imperador, Yvan, o Terrível, estará detido até hoje nas profundidades dos infernos... se é verdade que possuímos alma imortal... e segundo informam os “servos de Deus”, isto é, nossos santos monges de Kiev.

     O orador sorriu, como da primeira vez:

     "- E os nossos santos monges de Kiev afirmam a mais convincente verdade que jamais saiu de suas bocas! Porventura não é inferno viver uma alma, que conheceu as glórias do poder, os caprichos do amor, o triunfo das paixões, os regalos da fortuna, a fascinação das turbas prostradas aos seus pés, os gozos vis da soberania cruel, não é inferno sentir-se essa alma, depois, na dobagem dos séculos, retida numa cadeira de rodas, prisioneira de si mesma, votada ao mais contundente abandono pelos próprios a quem amou, envolta em misérias sem-fim, sentindo, minuto a minuto, a lepra corroer-lhe as carnes, devorar-lhe os olhos para torná-los cegos, destruir-lhe as mãos, que outrora foram homicidas, para aprofundar as suas mesmas amarguras; soltar-lhe os dentes, para detalhar o martírio e a fealdade; deformar-lhe o rosto, para torná-lo monstruoso como o próprio caráter, com que outrora delinquiu, reduzindo-o a este montão de escombros deteriorados, repelentes até para si própria? Já imaginou, Excelência, porventura, o infernal suplício daquele que não possui mãos para os próprios serviços? Pois, eu não as possuo mais! Sabe, Excelência, como poderei ingerir os alimentos se, por qualquer motivo, Karl, o meu anjo bom, não está presente para mos levar à boca, também já aviltada, porque sem o paladar? Pois faço-o como o faz o animal, como fazem os cães do vosso canil e os cevados das vossas pocilgas: Karl deixa-os aqui, alimentos, sobre esta mesa, ao pé de mim. Se advém o apetite incontrolável, tateio ao acaso, com os tocos destas mãos; deponho o rosto envilecido sobre o prato e vou retirando, com a boca, os bocados dos mesmos alimentos."

     Dimitri tapou os olhos com as mãos finas e bem tratadas, que se crisparam, revelando emoção insólita, e a custo sofreou as lágrimas que ameaçavam jorrar, para que o leproso não percebesse que chorava. Os criados, com olhos arregalados pelo assombro, retiraram-se da sala, postando-se no alpendre da entrada. Karl continuava escrevendo, indiferente ao que se passava. E Kozlovsky prosseguiu:

     "- Não será, porventura, sentir-se retido nas entranhas dos infernos o coração que, como o meu, amou loucamente uma mulher, da qual fez sua esposa, por quem daria o sangue das próprias veias e a vida, mas que, ao adoecer, viu-a fugir de si, apavorada da sua enfermidade e da sua presença, e a qual, obrigada a voltar ao lar pelas autoridades judiciárias, para tratar do esposo desgraçado, que sou eu, tendo em vista que, como ele, estaria contaminada pelo mesmo mal, preferiu matar-se para se livrar dele, a viver e ter de suportá-lo? Porventura eu, que fui Yvan IV, o Terrível, não estarei ainda hoje nos infernos, quando, irremediavelmente cego, impossibilitado de enxergar até mesmo os alimentos de que me nutro, a ver se não haverá ali deteriorações, nem mesmo a piedade consoladora de um raio de sol na primavera, posso, no entanto, ver, durante horas e dias consecutivos (oh! a única coisa, Excelência, que é dado aos meus olhos enxergar!), a alma conflagrada da mulher amada, enlouquecida nas ânsias advindas do suicídio, a vagar, por entre gritos e blasfêmias pungentes, por esta mesma casa onde habitou e foi feliz ao meu lado, e a me suplicar perdão, a me rogar socorro para suas desgraças, porventura maiores do que as minhas, porque não encontra nem asilo, nem refúgio, nem consolo, nem alívio em parte alguma, como suicida que foi, ao passo que eu possuo a coragem da fé que deposito no amor do Criador e no destino da minha alma?"         

     - E que fazes então, desgraçado? Oh! que fazes, quando semelhante tortura, que os infernos esqueceram de inventar, te enlouquece a mente? - bradou Dimitri, banhado em lágrimas.

     "- Que faço?... Que faço?... Volto-me para Deus, “barine”! Oro! Suplico a clemência dos Céus para ela, cem vezes mais desgraçada do que eu, porque eu, eu, Excelência, possuo o tesouro de uma certeza inabalável na misericórdia do Altíssimo, certeza que me consola e revigora para levar, até o final, a humilhação da minha vergonha de alma culpada que se arrepende... ao passo que ela, ela, nem mesmo acredita em si própria, na existência da própria alma em atribulações, pois supõe-se viva, a debater-se em insondáveis pesadelos agravados pela minha presença!...

     Sim, Yvan, o Terrível! Sofredor, degradado pelos próprios crimes pretéritos, cujas repercussões expiatórias o perseguem há três longos séculos! Reduzido ao mais trágico e mais sórdido nível social existente sobre a Terra! Mas, arrependido! Certo do seu passado reencarnatório! Absolutamente certo e confiante na justiça do presente! Esperançado na reabilitação, através da Dor e do Trabalho, para situação condigna, no futuro! E resignado aos complexos da atual situação, ao compreender que, sendo alma imortal, destinada a ininterrupta quão gloriosa ascensão para o Melhor, à procura da Perfeição, será necessário que sofra, que chore, que se submeta e humilhe, para aprender que a lei promulgada para as diretrizes das almas filhas de Deus é - Amor a Deus e ao próximo - caminho de luz que, um dia, o alçará à dignidade da união com Ele, o Absoluto!..." 

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Nota do compilador: 1 - Swedenborg =1688-1772 - Fundou uma doutrina, cheia de contrastes. Porém, é um desses grandes personagens cuja lembrança estará ligada à história do Espiritismo.

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